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sábado, 7 de setembro de 2019

Direito e Autoridade de uma Assembleia


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Direito e Autoridade de uma Assembleia ou Comunidade Crista de Julgar toda Doutrina, Chamar, Nomear e Demitir Pregadores — Fundamento e Razão da Escritura


1523

Introdução

Este escrito foi preparado por Lutero em meio a uma situação em que fora desafiado a externar-se acerca das consequências do Evangelho para a edificação de uma comunidade cristã. As bases teológicas para a Reforma já tinham sido colocadas no ano de 1520, com uma série de escritos que causaram grande impacto. De especial importância para o escrito que segue, foi a noção de sacerdócio geral de todas as pessoas crentes, desenvolvida repetidas vezes nas publicações daquele ano. “Direito e Autoridade de uma Assembleia ou Comunidade Cristã de Julgar toda Doutrina, Chamar, Nomear e Demitir Pregadores — Fundamento e Razão da Escritura” se localiza na trajetória de vida do reformador em um momento no qual, depois de alguns meses, retornado a Wittenberg do refúgio no castelo de Wartburgo, se ocupava intensivamente com as implicações práticas da Reforma para as comunidades. A comunidade de Leisnig, localizada no Eleitorado da Saxônia a meio caminho entre Leipzig e Dresden, solicitara a Lutero uma orientação sobre o modo de organizar futuramente sua comunidade. No final do mês de setembro de 1522, ele visitou a comunidade, quando deliberaram a respeito da introdução de um estatuto comunitário evangélico. Posteriormente, quando a comunidade quis investir em seu ofício dois pregadores, surgiram dificuldades de cunho jurídico-eclesiástico. O patronato sobre a cidade pertencia, desde muito, ao abade do mosteiro cisterciense de Buch, localizado nas proximidades de Leisnig. Em face da situação, a comunidade soube argumentar no sentido da Reforma, invocando o direito oriundo de Cristo para que a comunidade chame ou destitua pregadores.
Em outubro de 1522, Lutero realizou prédicas na cidade de Weimar, que redundaram numa espécie de esboço do escrito “Da autoridade secular, até que ponto se lhe deve obediência” (1523) e, também, incluíram importante reflexão sobre o sacerdócio geral de todas as pessoas crentes. Justamente acerca disso foi que Lulero, em boa medida, se manifestou a pedido da gente de Leisnig. Autorizados pela comunidade, dois representantes se dirigiram a Lutero com o pedido de que “confirmasse seu ministério paroquial” por meio de um escrito. Lutero respondeu ao escrito de uma maneira mais geral, sem se limitar de modo exclusivo à situação de Leisnig, embora o quadro que lá se configurava e a solução de um estatuto comunitário tenham servido de pano de fundo. Nesse meio tempo, os dois pregadores evangélicos, Sebastião de Kötteritzsch e Francisco Salbach, redigiram o esboço do que viria a ser um Estatuto para uma Caixa Comunitária, posteriormente, editado e prefaciado por Lutero. Além disso, Lutero também escreveu “A Ordem do Culto na Comunidade”, atendendo à solicitação feita na mesma carta de fins de janeiro.
O escrito abaixo precisa ser visto sob o pano de fundo jurídico-eclesiástico de então. Lutero afirma que o direito da comunidade precede ao direito do papado e do Bispado. Com isso avança na crítica já promovida contra a autoridade espiritual não-evangélica no panfleto dirigido à nobreza cristã da Alemanha, em 1520. Muitas vezes Ignorado pela pesquisa histórica, o presente escrito que afirma o direito da comunidade cristã de julgar toda doutrina, chamar, nomear e demitir pregadores, enfraquece a Opinião bastante difundida de que Lutero teria meramente concordado com o domínio do governo secular sobre a Igreja. Para compreender a situação jurídico-eclesiástica é preciso considerar as estruturas patriarcais de poder de então e, especialmente, a base bíblica a partir da qual Lutero se manifesta em relação a um novo ordenamento da comunidade, que fosse coerente com a perspectiva do Evangelho. A comunidade de Leisnig se caracterizava em muito pela incapacidade de seus membros seguirem o Proposto por Lutero para sua reestruturação. A concepção do reformador, justamente por causa disso, foi considerada por muitos extremamente utópica. Isso o próprio Lutero acaba confirmando, em outro contexto, no prefácio à “Missa Alemã e Ordem do Culto” (1526), quando diz ainda não haver gente que decididamente colocasse em prática os princípios evangélicos nas comunidades. Por isso mesmo, esse escrito permanece sendo uma contribuição excepcional para a discussão do problema permanente da relação entre ministério e comunidade.
Não há uma data exata para sua publicação. Com base numa reimpressão feita em Zwickau, calcula-se que a primeira edição, preparada na gráfica de Lucas Cranach e Cristiano Döring em Wittenberg, seja de fins de abril ou começo de maio de 1523. O escrito integra as principais edições e obras de Lutero lançadas na Alemanha e fora dela.
O conteúdo de “Direito e Autoridade de uma Assembleia ou Comunidade Cristã de Julgar toda Doutrina, Chamar, Nomear e Demitir Pregadores — Fundamento e Razão da Escritura” pode ser distribuído da seguinte estrutura:
(Esboço e notas suprimidas - suprimido)

Em primeiro lugar, é necessário saber onde fica e qual é a comunidade cristã, para que não aconteça (como os não-cristãos sempre estiveram acostumados) que pessoas empreendam negócios humanos sob o nome da comunidade cristã. A comunidade cristã deve ser reconhecida, sem sombra de dúvida, na pregação do Evangelho puro. O estandarte do exército é um sinal seguro pelo qual se reconhece quem é o senhor e qual o exército que está em campo. Da mesma forma também é no Evangelho que se reconhece, com certeza, onde estão Cristo e seu exército. Para isso lemos a segura promessa de Deus em Isaías 55[.10s.]: “A palavra (diz Deus) que sair da minha boca, não voltará para mim vazia, mas, cai do céu para a terra e a frutifica, assim também minha palavra realizará tudo para que a envio.” Daí temos certeza de que é impossível não haver cristãos ali onde anda o Evangelho, por menor que seja o seu número e, por mais pecaminosos e frágeis que sejam; da mesma forma, é impossível que haja cristãos e não somente pagãos ali onde não está o Evangelho e dominam doutrinas humanas, sejam quantas forem e por mais santas e excelentes que elas se apresentem.
Disso se conclui, sem dúvida alguma, que os bispos, conventos, mosteiros e o que há de gente desta espécie nem de longe têm sido cristãos, tampouco uma comunidade cristã, mesmo que tenham reivindicado esse nome sozinhos, antes de todos os outros. Pois quem reconhece o Evangelho, vê, ouve e entende como ainda hoje eles permanecem em suas doutrinas humanas e jogaram fora, por inteiro, o Evangelho e ainda continuam jogando. Por isso é preciso considerar pagão e mundano o que essa gente faz e alega.
Em segundo lugar, nessa questão de julgar doutrina, admitir e demitir professores ou pastores, não se deve ligar em nada para lei humana, direito, tradição antiga, costume, hábito, etc., tanto faz se fixados pelo papa [409] ou imperador11, príncipe ou bispo, tanto faz que meio mundo ou o mundo inteiro assim o faça, ou se isso perdura por um ou mil anos! Porque a alma da pessoa é algo eterno, está acima de tudo que é temporal; por isso ela deve ser regida e provida apenas pela palavra eterna. Pois é deplorável reger as consciências perante Deus com base em direito humano e em costume de longa data. Por isso é preciso agir neste ponto de acordo com a Escritura e a Palavra de Deus. Pois Palavra de Deus e doutrina humana se querem dirigir à alma, — e jamais poderá ser diferente —conflitam entre si. Queremos demonstrá-lo claramente na presente questão, ou seja, da seguinte forma;
Palavra e doutrina humana fixaram e determinaram que o julgamento da doutrina deve ser delegado exclusivamente aos bispos, eruditos e concílios; o que os mesmos resolvessem, isto todo o mundo deveria considerar certo e como artigo de fé, conforme o demonstram de sobejo seu diário vangloriar-se sobre o direito espiritual do papa. Pois quase nada mais se ouve deles senão essa fanfarronice de que com eles está o poder e o direito de julgar o que é cristão ou herético, e que o cristão simples deveria esperar por seu parecer e se orientar de acordo. Veja como essa presunção, que é seu sustentáculo e baluarte supremo, com a qual atemorizaram todo mundo, investe descarada e tolamente contra a lei e a Palavra de Deus!
Pois Cristo determina precisamente o contrário e tira dos bispos, eruditos e concílios ambas as coisas, tanto o direito como o poder de julgar a doutrina, dando- os a todo mundo e a todos os cristãos de modo geral, ao dizer em Jo 10[.27]: “Minhas ovelhas ouvem a minha voz”; igualmente [v. 5]; “Minhas ovelhas não seguirão o estranho, antes fugirão dele, porque não conhecem a voz dos estranhos”; ou [v.8]: “Todos quantos vieram antes de mim, são ladrões e salteadores; mas as ovelhas não lhes deram ouvido,”
Aqui vês bem claramente quem tem o direito de julgar a doutrina: bispo, papa, erudito e todo mundo tem poder de ensinar, mas as ovelhas devem julgar se ensinam a voz de Cristo ou a dos estranhos. Meu caro, que podem dizer contra isso as bolhas d’água que tagarelam por aí: “Concílios, concílios, ah, é preciso ouvir os eruditos, bispos, o povo, devemos levar em consideração o velho uso e costume”? Achas que para mim a Palavra de Deus deveria ceder lugar a seu velho uso, costume e bispos? Jamais! Por isso deixamos que os bispos e concílios resolvam e determinem o que quiserem. Mas onde tivermos a Palavra de Deus a nosso favor, cabe a nós e não a eles [julgar] se é [410] justo ou injusto, e eles é que devem ceder a nós e obedecer à nossa palavra.
Aqui se vê com suficiente clareza, penso eu, o quanto se pode confiar naqueles que lidam com as almas segundo a palavra humana. Quem é que não vê aqui que todos os bispos, capítulos, mosteiros e escolas superiores com tudo o que lhes pertence se revoltam contra esta clara Palavra de Cristo, de forma a privarem descaradamente as ovelhas do julgamento sobre a doutrina, apropriando-se dele eles mesmos por própria determinação e arbitrariedade? Por isso, com toda certeza, também devem ser considerados assassinos e ladrões, lobos e cristãos apóstatas, uma vez que aqui está demonstrado de público que não somente negam a Palavra de Deus, mas também se colocam e agem contra ela; como, aliás, cabe ao anticristo e seu reino, conforme a profecia de S. Paulo, 2 Ts 2[.3s.].
Mais uma vez diz Cristo em Mt 7[.15j: “Acautelai-vos dos falsos profetas que se vos apresentam disfarçados em ovelhas; mas por dentro são lobos roubadores.” Vê, aqui Cristo delega o julgamento não aos profetas e mestres, mas aos alunos ou ovelhas, bois como seria possível acautelar-se aqui dos falsos profetas, sem considerar sua doutrina, julgá-la e avaliá-la? Da mesma forma, não pode haver falso profeta algum entre os ouvintes e, sim, apenas entre os que ensinam. Por isso todos os professores devem e têm que estar sujeitos com sua doutrina ao parecer dos ouvintes.
A terceira passagem é de S. Paulo em 1 Ts 5[.21]: “Julgai todas as coisas, retende o que é bom”. Vê, aqui ele quer que não seja mantida nem doutrina nem sentença que não seja examinada e reconhecida como boa pela comunidade que a ouve, Pois esse exame, de qualquer forma, não se refere aos professores e, sim, os professores primeiro têm que dizer aquilo que deve ser examinado. Portanto, também aqui o julgamento é tirado dos professores e dado aos alunos, entre os cristãos; dessa forma, entre os cristãos a coisa é bem diferente que no mundo. No mundo, os senhores mandam o que querem e os súditos obedecem. “Mas entre vós”, diz Cristo, “não seja assim” [Mt 20.26]. Entre os cristãos, cada um é juiz do outro e, inversa- mente, também sujeito ao outro, apesar de os tiranos clericais terem feito da cristandade uma autoridade secular.
O quarto enunciado é novamente de Cristo, em Mt 24[.4J: “Vede que ninguém vos engane, Porque virão muitos em meu nome, dizendo: Eu sou o Cristo, e enganarão a muitos.” Em suma, que necessidade há [411] de apresentar mais citações ainda? Todas as advertências feitas por S. Paulo, Rm 16[.13,18]; 1 Co 10[.14]; Gl 3[.l- 5] 4[.12-20]; 5[.1-15]; Cl 2[.8] e, por toda parte, e ainda afirmações de todos os profetas que ensinam a evitar doutrina humana: eles nada mais fazem do que tirar dos professores o direito e a autoridade de julgar toda doutrina e os atribuem aos ouvintes, como ordem a ser levada a sério, sob pena de se perder a alma. Portanto, os ouvintes não só têm o poder e o direito de julgar tudo que é pregado, mas também o dever, sob o risco de caírem na desgraça de Deus. Nisso vemos quão pouco cristão é o procedimento dos tiranos conosco, ao nos tirarem semelhante direito e ordem e tomando-os para si mesmos. Só com isso já mereceram fartamente a expulsão da cristandade e serem tocados para longe como lobos, ladrões e assassinos que nos ensinam e dominam contra a Palavra e vontade de Deus.
Por conseguinte, concluímos então que, onde houver uma comunidade cristã que possua o Evangelho, ela não só tem o direito e a autoridade, mas também, pela salvação de sua alma e segundo o compromisso que ela assumiu para com Cristo no Batismo, o dever de evitar, demitir, fugir e subtrair-se da autoridade que agora ocupam os bispos, abades, mosteiros, cabidos e semelhantes: porque está visto que ensinam e governam em oposição a Deus e sua Palavra. Com isso esteja fundamentado, para começar, com segurança e vigor suficientes, e nisso se pode confiar: é direito divino e necessário para a salvação das almas que se deponham ou evitem semelhantes bispos, abades, mosteiros e o que há de instituições desse tipo.
Em segundo lugar: Como, porém, uma comunidade cristã não pode nem deve ficar sem a Palavra de Deus, segue do precedente com suficiente evidência que eia, mesmo assim, precisa de professores e pregadores para promover a Palavra. Nestes últimos tempos malditos, os bispos e o falso regime espiritual não são nem querem ser tais professores, tampouco os querem fornecer nem tolerar. E como não se pode tentar a Deus com o pedido de enviar novos pregadores do céu, nós mesmos temos que proceder conforme a Escritura e convocar e instituir aqueles dentre nós que são idôneos para isso e os quais Deus iluminou com entendimento e ainda dotou de talentos.
Pois isto ninguém pode negar, que cada cristão tem a Palavra de Deus e foi instruído e ungido por Deus para ser sacerdote, como diz Cristo cm Jo 6[.45|: “Serão todos instruídos por Deus”, e Salmo 44[sc. 45.7]: “Deus te ungiu com o óleo da alegria como a nenhum dos teus semelhantes”. Esses companheiros [412] são os cristãos, irmãos de Cristo, que com ele estão ordenados sacerdotes, como também diz Pedro, em 1 Pe 2[.9]: “Vós sois o sacerdócio real, para que proclameis os benefícios daquele que vos chamou das trevas para sua maravilhosa luz.”
Tendo eles a Palavra de Deus e sendo por ele ungidos, também têm o dever de confessar, ensinar e difundi-la, como diz Paulo em 1 Co 4[sc. 2 Co 4.13]: “Nós, entretanto, temos o mesmo espírito da fé, por isso também falamos”, e o profeta, no Salmo 116[.10]: “Eu cri, por isso é que falo”; e no Salmo 51 [.13] ele diz de todos os cristãos: “Ensinarei aos transgressores os teus caminhos, e os pecadores se converterão a ti.” Portanto, fica assegurado aqui, mais uma vez, que um cristão não só tem o direito e a autoridade para ensinar a Palavra de Deus, mas que ele tem o dever de fazê-lo, sob pena de perder sua alma e cair na desgraça de Deus.
Replicarás então: Mas como? Se não estiver convocado para isso, ele não pode pregar, como tu mesmo ensinaste muitas vezes. Resposta: Aqui deves considerar o cristão em duas situações diferentes. Primeiro: Se ele estiver num lugar em que não há cristãos, não é necessária qualquer convocação senão o simples fato de ele ser cristão, convocado e ungido interiormente por Deus. Nesse caso, tem a obrigação de pregar aos pagãos ou não-cristãos que estão no engano e ensinar-lhes o Evangelho por dever de amor fraternal, mesmo que nenhuma pessoa o convoque para esse fim. Assim agiu Sto. Estêvão, At 6[.8,10], 7[.2ss.], que de forma alguma fora incumbido do ministério de pregação pelos apóstolos, mas assim mesmo pregou e realizou grandes sinais entre o povo. No mais, da mesma forma agiu Filipe, o diácono, companheiro de Estêvão, At 8[.5], sendo que ele tampouco fora incumbido do ministério da pregação. De igual modo procedeu Apoio, At 18[.25s]. Pois num caso desses, um cristão enxerga, em amor fraternal, a necessidade das pobres almas em perigo e não espera que príncipes ou bispos lhe deem ordem ou cartas [de recomendação]. Porque a necessidade rompe todas as leis e não tem lei. Assim, o amor tem o dever de ajudar onde, no mais, não há ninguém que ajude ou devesse ajudar.
Segundo: Se, entretanto, estiver num lugar em que há cristãos, os quais junto com ele têm a mesma autorização e direito, ele não deve projetar a si mesmo. Espere até que seja convocado e escolhido para pregar e ensinar no lugar e por ordem dos demais. Sim, um cristão tem tanta autoridade que até no meio de cristãos pode e deve entrar em cena [413] e ensinar, mesmo que não convocado por pessoas, quando vê que o professor ah está ensinando errado; entretanto, que se proceda de forma educada e decente. Isso S. Paulo o descreveu claramente em 1Co 14[.30] onde diz: “Se algo é revelado àquele que está sentado, o primeiro, o que está a falar, deve calar-se.” Vê só o que S. Paulo faz aqui: no meio dos cristãos ele manda calar e retirar-se aquele que está ensinando, para que se levante aquele que ouve, mesmo sem estar convocado. Tudo isso porque necessidade não conhece mandamento.
Assim, S. Paulo propõe aqui que, se necessário, qualquer um pode apresentar- se no meio dos cristãos, mesmo sem estar convocado. Por semelhante Palavra de Deus, ele está convocado, fazendo o outro ceder e o depondo por força dessas palavras. Quanto mais não será correto que toda uma comunidade convoque alguém para semelhante ministério, quando for necessário. Isso, aliás, sempre foi o caso e, principalmente, agora. Pois na mesma passagem S. Paulo autoriza qualquer cristão a ensinar entre cristãos, se for necessário, e diz: “Podeis profetizar todos, um após o outro, para que todos aprendam e todos sejam exortados” [1Co 14.31]. E mais: “Deveis procurar profetizar, e não impeçais que se fale em línguas; mas fazei tudo de forma ordeira e decente” [1Co 14.39s.].
Que esta passagem sirva de argumento que não deixa dúvidas sobre o poder superabundante da comunidade cristã de pregar, fazer pregar e convocar. De modo especial, em caso de necessidade, esta própria passagem convoca a qualquer um, inteiramente sem convocação por pessoas; pois não devemos ter dúvida de que a comunidade que tem o Evangelho, pode e deve escolher e convocar em seu próprio meio aquele que ensina a Palavra em seu nome.
Se, porém, objetas: S. Paulo mandou Timóteo e Tito nomear presbíteros. Da mesma forma, lemos também em At 14[.23J que Paulo e Barnabé ordenaram presbíteros entre as comunidades. Por essa razão, a comunidade não pode convocar alguém, tampouco pode alguém projetar-se a si mesmo para pregar entre os cristãos. E preciso que se tenha a permissão e a ordem dos bispos, abades ou de outros prelados que estão no lugar dos apóstolos. Resposta: Se os nossos bispos e abades, etc. estivessem no lugar dos apóstolos, como pretendem, seria uma opinião justificada esta de que se deveria permitir-lhes fazerem o que fizeram Tito, Timóteo, Paulo e Barnabé em relação à nomeação de presbíteros, etc. Como, porém, eles estão no lugar do diabo e são lobos que não querem nem ensinar nem aturar o Evangelho, o provimento do ministério da pregação e da cura de almas entre os cristãos diz respeito a eles tanto quanto aos turcos e judeus. Eles que toquem burros e conduzam cachorros!
[414] Além disso, se realmente fossem verdadeiros bispos que tivessem o Evangelho e quisessem nomear verdadeiros pregadores, ainda assim, não poderiam nem deveriam fazê-lo sem a vontade, escolha e convocação da comunidade; a não ser que a necessidade o imponha, para que as almas não se desvirtuem por carência da Palavra de Deus. Pois, para o caso de semelhante necessidade, já ouviste que não só pode qualquer um providenciar um pregador, seja por solicitação ou pelo poder da autoridade secular, mas, sim, ele mesmo também pode acorrer, apresentar-se e ensinar, se puder. Pois necessidade é necessidade e não tem medida, da mesma forma como todo mundo deve acorrer e tomar providências quando houver incêndio na cidade e não ficar esperando até que alguém o solicite.
Nos outros casos, onde não houver semelhante necessidade c houver pessoas disponíveis que têm o direito e a autoridade e a graça de ensinar, nenhum bispo deve nomear a alguém sem a escolha, vontade e convocação por parte da comunidade. Deve antes confirmar o eleito e convocado da comunidade. E mesmo que não o faça, o mesmo estará confirmado pela convocação da comunidade. Pois nem Tito, nem Timóteo, nem Paulo jamais nomearam um presbítero sem escolha e convocação da comunidade. Isso fica claramente comprovado pelo fato de ele dizer em Tt 1 [.7] e 1Tm 3[.2,10] que um bispo ou presbítero deve ser irrepreensível e os diáco- nos, primeiro devem ser examinados. Agora, Tito não terá tido conhecimento de quais teriam sido irrepreensíveis; esse testemunho tem que proceder da comunidade, esta é que tem que propor alguém.
Assim também lemos em At 4 [sc. 6.2ss.] que os próprios apóstolos não puderam nomear pessoas como diáconos, um cargo de importância muito menor, sem o conhecimento e a vontade da comunidade. E, sim, foi a comunidade que escolheu e convocou os sete diáconos, sendo que os apóstolos os confirmaram. Se é assim, que os apóstolos não podiam, por determinação própria, fazer nomeações para semelhante cargo, destinado apenas à distribuição de alimento temporal, como haveriam de ser tão audaciosos a ponto de delegar a alguém por própria determinação, o mais alto ministério, o da pregação, sem o conhecimento, a vontade e a convocação da comunidade?
Como, porém, em nosso tempo, há necessidade e não há um bispo que providencie pregadores evangélicos, de nada vale aqui o exemplo de Tito e Timóteo. É preciso convocar de dentro da comunidade, tanto faz se é confirmado por Tito ou não. Pois assim também teriam ou deveriam ter agido aqueles que Tito provia, caso Tito não o quisesse confirmar ou não [415] houvesse ninguém que nomeasse prega dores. Por isso, o tempo presente é totalmente diferente dos tempos de Tito, quando os apóstolos estavam na direção e queriam ter bons pregadores; agora, entretanto, nossos tiranos querem somente lobos e ladrões.
E por que nos condenam os tiranos vociferadores por causa dessa eleição e convocação? Eles mesmos agem dessa forma e têm que fazê-lo. Jamais alguém dentre eles se torna papa ou bispo sendo nomeado segundo a vontade de qualquer um, mas ele é eleito e convocado pelo cabido, cm seguida confirmado por outros: o bispo, pelo papa como seu superior; ele, porém, o próprio papa, pelo cardeal de Óstia como subordinado seu. E mesmo que aconteça que alguém não seja confirmado, ainda assim ele é bispo e papa*. Pergunto então aos caros tiranos: Se a eleição e convocação de sua assembleia faz alguém bispo, e o papa é papa sem qualquer confirmação de qualquer outra autoridade, somente pela eleição, por que uma comunidade cristã não haveria de constituir um pregador somente por uma convocação? Eles consideram o estado do bispo e do papa mais alto do que o ministério da pregação. Quem lhes deu esse direito e no-lo tirou? Isto que nossa convocação tem a Escritura a apoiá-la, ao passo que a convocação por parte deles é pura invenção humana, sem base na Escritura, com o que nos roubam nosso direito. Tiranos é que eles são, e malfeitores que nos tratam como convém aos apóstolos do diabo.
Por isso também se conservou o seguinte uso: em diversos lugares, autoridades seculares, como conselheiros municipais e príncipes, empregaram e pagaram para si mesmos pregadores em suas cidades e seus palácios. Eles mesmos os procuraram sem qualquer permissão ou ordem dos bispos e papas; e também ninguém fez qualquer objeção. Se bem que deixaram de objetar (temo eu) não por sua compreensão do direito cristão, mas porque os tiranos clericais desprezaram o ministério da pregação e não lhe deram valor, dando-lhe uma posição bem à parte do regime clerical, apesar de se tratar do ministério supremo, do qual dependem todos os demais. Novamente, onde não houver o ministério da pregação, não há nenhum dos outros a lhe suceder. Pois João 4[.2] diz que Cristo não batizou, mas apenas pregou. E Paulo, em 1Co 1[.17] se gloria de não ter sido enviado para batizar, mas para pregar.
Por isso, a quem foi confiado o ministério da pregação, a ele é confiado o supremo s ministério na cristandade. O mesmo, então, também pode batizar, oficiar a missa [416] e cuidar de toda a cura de almas, ou, caso não queira, pode ficar somente com a pregação o deixar Batismo e outros ministérios interiores para outros, como o fizeram Cristo e Paulo e todos os apóstolos, At 6[.4]. Nisso se pode perceber que nossos bispos e clérigos de agora são ídolos e não bispos. Pois o supremo ministério da Palavra, que deveria sei o seu próprio, eles o deixam com os inferiores, com capelães e monges terminários e, ainda, os ministérios de importância menor, como batizar e outras coisas pertinentes à cura de almas. Eles, enquanto isso, ficam crismando e consagrando sinos, altares e igrejas, o que não são atos nem cristãos nem episcopais, e, sim, inventados por eles mesmos. São mascarados, desvirtuados e ofuscados, e bons bispos infantis.

Obras Selecionadas de Lutero, v. 7, pp 25 a 36
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sexta-feira, 6 de setembro de 2019

Breves reflexões sobre ministério no Novo Testamento


Prof. Dr. Vilson Scholz


1. Ao contrário daqueles que entendem que, no início, a igreja tinha apenas uma liderança “carismática”,[1] no sentido de que não havia um ofício pastoral institucionalizado, é possível afirmar que as igrejas cristãs nunca estiveram sem liderança pastoral. Além do relato de Atos, em que se vê Paulo promovendo a eleição de presbíteros, a abertura da carta aos Filipenses revela que já no período inicial as igrejas paulinas tinham uma liderança de “bispos e diáconos” (Fp 1.1).[2]

2. Paulo trata do ministério em praticamente todas as suas epístolas, com destaque para 2Coríntios. Se levarmos em conta o Novo Testamento como um todo, e não só as cartas paulinas, há uma série de textos em destaque, quando o assunto é ministério pastoral: 1Timóteo 3.1-7; 5.17; Tito 1.5-9; Atos 20.17-38; Efésios 4.7-16; Hebreus 13.7-17 e 1Pedro 5.1-4. A essa lista tradicional cabe acrescentar o capítulo dois de 1Tessalonicenses.

3. O verdadeiro pastor da Igreja é o próprio Cristo, que é o archipoimen ou supremo pastor (1Pe 5.4). Todos os outros são subpastores que atuam segundo o modelo de Cristo e em nome ou lugar dele. Pode-se, portanto, esperar que a face de Cristo seja vista no rosto do pastor. A ausência disso compromete a autenticidade do pastor. O aspecto do serviço (Mc 10.45) é característica fundamental. Não como dominadores do rebanho, diz Pedro.

4. O ministério pastoral é apostólico e, por isso, a reflexão em torno do tema precisa começar com os apóstolos. Estes são, de certo modo, “anteriores” à igreja, embora se possa dizer que são também o núcleo inicial da igreja. Ao chamá-los, Jesus estabeleceu o núcleo de sua igreja e “instituiu” o ministério, na medida em que, como representantes autorizados ou “procuradores”, os apóstolos dariam continuidade ao serviço de ensino que o próprio Cristo iniciou. Assim, se quisermos ser exatos, não podemos dizer que os apóstolos detêm um ofício eclesiástico, pois de uma forma toda especial eles estão ligados e “subordinados” a Cristo e, neste sentido, se inserem no evento revelador de Deus em Jesus Cristo, como testemunhas autênticas da pessoa e obra de Jesus. Os apóstolos são extensão de Cristo e não ministros da igreja, como se fossem uma instituição desta ou um ofício que a igreja inventou, embora sirvam à Igreja, sendo também eles próprios igreja.
Os apóstolos são o fundamento ou alicerce da igreja para todos os tempos e em todos os lugares. O ministério de hoje é apostólico apenas no sentido de que está conectado com o testemunho apostólico de Cristo no evangelho, na medida em que o ministério de hoje passa adiante, na proclamação e no ensino, a palavra de Deus que os apóstolos nos legaram. O Cristo anunciado hoje, pelo ministério eclesiástico, é o Senhor do qual os apóstolos dão testemunho. Neste sentido, todos os pastores da igreja são “apostólicos”, do mesmo modo que a igreja, como corpo de Cristo, é “apostólica”. À luz disto, fica claro quão inapropriado é alguém autodenominar-se “apóstolo” na igreja de hoje.[3]

5. O fato de os apóstolos serem também o núcleo da igreja – e, conforme o texto de Efésios, o seu alicerce, sendo Cristo a pedra angular – permite afirmar que é impossível separar igreja e ministério um do outro. O que é dito da igreja é dito do ministério, e vice-versa. O ministério não se encontra acima da igreja, mas invariavelmente dentro dela. Isto requer ênfase, pois é muito fácil passar de servo a senhor,[4] de pastor a dominador do rebanho. Neste sentido, certas formulações em traduções bíblicas são tudo menos inocentes. Um exemplo típico é o uso de “sobre o qual (rebanho)” na tradução de Almeida, em At 20.28, quando o texto original diz “no qual o Espírito Santo vos constituiu bispos”. Outro exemplo é 1Ts 5.12, na antiga Almeida (Almeida Revista e Corrigida): os que “presidem sobre vós”, um texto que foi neutralizado na Almeida Revista e Atualizada: “vos presidem”. Mais impactante do que tudo isso deveria ser o modelo de Paulo, que se apresenta, em 2Co 1.24, como “cooperador da vossa alegria”. Outro texto que trata disso é 1Ts 2.7.
Por outro lado, a congregação não tem domínio sobre o ministério do evangelho (Gl 1), como se pudesse a seu bel-prazer alterar a pregação. Igreja e ministério têm acima de si o único Senhor, no qual são um. A obediência de que fala Hb 13.17 é obediência em relação ao testemunho da palavra de Deus. Esta obediência inclui o exame do que é anunciado. Afinal, a igreja ou o grupo dos que ouvem não está sem a palavra do Novo Testamento, resumida e explanada nas Confissões Luteranas, que funciona como norma ou critério. A igreja tem o direito e a obrigação de julgar doutrina. Lutero fundamenta isso em Jo 10.27: as ovelhas podem e precisam dizer se a voz que ouvem é do bom pastor ou não. É claro que a igreja sabe que ela própria está sujeita à mesma palavra.
6.  Por mais que a presença ou existência do ministério pudesse ser incluída no capítulo da boa ordem na igreja, como Lutero aparentemente fez, também, baseado em 1Co 14.40, é verdade que o ministério é dom de Cristo à igreja (Ef 4). Um dom só pode ser aceito ou rejeitado. Assim, o ministério não é ideia da igreja ou assunto a ser avaliado – e reconfirmado ou rejeitado – de tempos em tempos. Ao chamar um pastor, a igreja apenas preenche um ofício que o próprio Senhor instituiu. Paulo diz aos bispos e presbíteros de Éfeso que eles foram constituídos bispos pelo Espírito Santo (At 20.28). Isto não anula o fato de que essas pessoas foram escolhidas pela igreja.

7. A pergunta sobre o que veio ou vem antes, a igreja ou o ministério, é uma pergunta mal posta. O que veio e vem antes é a palavra de Deus (Cristo), que dá origem a ambos.[5] Assim, à luz da teologia luterana, especialmente a sequência entre o artigo IV e o artigo V da Confissão de Augsburgo,[6] o ministério está a serviço da palavra, e não a palavra a serviço do ministério. Neste ponto há uma importante diferença entre a visão católico-romana e a luterana. Para Roma, a palavra é instrumento do ministério. O bispo também prega. Para Lutero, o ministério é instrumento da palavra. À luz desta perspectiva se entende tanto a postura de Paulo em Filipenses 1.15-18,[7] onde aparece o primado da pregação, quanto o que ensina o artigo VIII da Confissão de Augsburgo, em que se confessa que a eficácia dos sacramentos não depende da piedade dos pastores.

8. A correlação entre ministério e igreja é tal que a existência e atuação de um não anula a existência e atuação de outro. A múltipla entrega do ofício das chaves aponta nessa direção. Como lembra Hermann Sasse, no Novo Testamento a potestas clavium ou o ofício das chaves não é entregue uma só vez, mas três vezes: em Mateus 16, a Pedro; em João 20, a todos os apóstolos; e, em Mateus 18, a toda a igreja. Hermann Sasse diz bem: “Apenas onde existe um ministério vivo, funcionando com a plena autoridade de sua missão, se encontra também uma congregação viva. E só existe um ministério vital onde existe uma congregação viva. (...) Se o ministério entra em crise ou fracassa, ocorre o mesmo com a congregação, e vice-versa”.

9. Em função dessa coexistência de igreja e ministério, não se sustenta qualquer tipo de Übertragungslehre ou doutrina de transferência de privilégios e responsabilidades do “sacerdócio de todos os cristãos” ao ministério pastoral. Edmund Schlink é enfático: “A igreja não transfere seu ofício de pregação do evangelho e administração dos sacramentos a pessoas do seu meio, mas preenche o ofício que lhe foi confiado por Deus, chama para o ofício instituído por Deus” (Theology of the Lutheran Confessions, p. 245).

10. As Confissões Luteranas têm pouco sobre o ofício do ministério. Têm menos ainda sobre os assim chamados “leigos”,[8] e nada sobre o relacionamento entre “leigos” e pastores.[9] Esta reticência das Confissões condiz com o pouco que o Novo Testamento tem a dizer sobre o assunto. O Novo Testamento apresenta vários quadros de como pastores eram escolhidos, em situações que podem ser chamadas de “normais”. Mas, de modo geral, é preciso dizer que o Novo Testamento tem pouco a dizer sobre como era feita a eleição de pastores. Isto está na mesma linha da reticência quanto a como organizar e “governar” a igreja.[10] Assim, muito do que nós chamamos de “doutrina do chamado” é, não uma ordem divina, mas uma praxe consagrada pelo tempo. As Escrituras não permitem estabelecer diferença essencial entre chamado e ordenação, por exemplo.[11] Também não estabelecem uma maneira fixa e única de se chamar um pastor. Não lançamos sortes, mas até seria possível fazer um sorteio entre três candidatos, ao final do processo de eleição de um pastor.[12] Entendemos que Deus chama e, por isso, podemos continuar falando sobre “chamado divino”. Agora, Deus chama através de quem? A congregação chama? Um conselho administrativo pode chamar? Uma liga missionária pode chamar um pastor? Um sínodo chama pastores? A resposta óbvia é esta: é sempre a igreja que chama, mesmo que seja um conselho administrativo, uma liga missionária, ou uma diretoria nacional de um sínodo. O corpo de Cristo sempre é íntegro, ou seja, não pode ser fracionado. Hermann Sasse explica: “Deus chama homens para o seu serviço, em geral por meio de pessoas. Pouco importa como isso se dá. Se é ação de um indivíduo, ou um grupo oficial ou a igreja reunida em culto a Deus: tudo é feito em nome da igreja, toda a igreja, que é o corpo de Cristo, e, com isso, no poder do Espírito Santo”.



[1] Esta visão deriva, em grande parte, da leitura de 1Coríntios.
[2] Cabe explicar que exegetas que aceitam uma visão evolutiva, segundo a qual um ministério formal ou oficial só teria surgido mais para o fim da época do Novo Testamento, ou seja, na época em que, segundo eles, foram escritas as Cartas Pastorais, tiram o peso dessa afirmação, entendendo que se tratam de funções e não de ofícios.
[3] “Apóstolo” é, por definição, um termo de serviço. Não é “status”. No contexto brasileiro, como alguns afirmam, em tom crítico, a postura um tanto arrogante desses “apóstolos” dá a entender que, no momento em que deixassem de ser “apóstolos”, só poderiam ser “Deus”.
[4] Em termos de língua alemã, é fácil passar de “Pfarrer” (pároco) a “Pfar-herr” (senhor da paróquia).
[5] Em termos análogos, seria como responder à pergunta quanto ao que veio antes, se o ovo ou a galinha, em termos de “o que veio antes é o Criador de ambos”.
[6] O artigo V da Confissão de Augsburgo começa assim: “Para conseguirmos essa fé [de que trata do artigo IV], instituiu Deus o ofício da pregação...”.
[7] Paulo está feliz com o fato de Cristo ser anunciado, pouco importando o motivo.
[8] O Novo Testamento desconhece o conceito de “leigos”. Em termos teológicos, só existem leigos onde existem sacerdotes. Como a igreja cristã é, como um todo, sacerdotal, os assim chamados “leigos” são, a rigor, todos sacerdotes. Em função disso, a teologia luterana não contempla uma “teologia do laicato”. Tudo que se tiver que dizer sobre “leigos” cabe dentro do conceito de igreja e vice-versa.
[9] Para quem não é especialista ou olha de fora, parece que Melanchthon, que não era pastor, enfatizou a instituição divina do ministério mais do que Lutero.
[10] Prova disso é que é possível extrair um modelo congregacional, um modelo presbiteriano e um modelo episcopal, sem que o Novo Testamento defina a questão.
[11] E o mesmo poderia ser dito sobre ordenação e instalação.
[12] É o que admite, por exemplo, um documento da Comissão de Teologia do Sínodo de Missouri, intitulado Theology and Practice of ‘the Divine Call’, 2003.

sexta-feira, 27 de julho de 2018

2018 - Pieper, Franz (em espanhol) - ministério

Pieper, Francis. Christian Dogmatics. Vol. III. (Saint Louis: CPH, 1953), pp. 439-469.

Sección “El Ministerio Público”

1 – Naturaleza del Ministerio Público

El término “ministerio” es usado tanto en la Escritura como en Iglesia en un sentido general o amplio, y en un sentido particular o estrecho. En el sentido amplio abarca cada forma de predicación del Evangelio o administración de los medios de gracia, sea por parte de cristianos en general, como a quienes se les han confiado originalmente los medios de gracia y se los ha comisionado para aplicarlos, o a través de siervos públicos (ministri ecclesiae) en nombre y por mandato de los cristianos. En este artículo hablamos del ministerio público en el sentido estrecho, es decir, del oficio por el cual los medios de gracia originalmente dados a los cristianos como su posesión inalienable, son administrados por mandato y en beneficio de los creyentes.

El ministerio en este sentido presupone congregaciones cristianas. Solo una congregación puede establecer el ministerio público. Los Artículos de Esmalcalda (Poder y Jurisdicción de los Obispos): “Porque dondequiera existe la iglesia, allí también existe el derecho de administrar el Evangelio. Por lo cual, es necesario para la iglesia retener el derecho de llamar, elegir y ordenar ministros” (Triglotta 523, 67 [Libro de Concordia 345]). Esto es escritural. Solo después que el trabajo misional en Creta dio como resultado congregaciones, entonces Pablo mandó a Tito (Tito 1:5) que ordenara ancianos (πρεσβυτέρους) “en cada ciudad”, κατὰ πόλιν, en las ciudades donde había congregaciones, a cuyos ancianos o presbíteros, él llamó obispos (ἐπίσκοπον), v.7. Además, se nos dice de las congregaciones que llegaron a existir durante el primer viaje misionero de Pablo en Asia Menor que cuando Pablo y Bernabé regresaron “ordenaron ancianos (πρεσβυτέρους) en cada iglesia, κατ’ ἐκκλησίαν, donde sea que había congregaciones (Hechos 14:23).

Que el ministerio público presupone congregaciones también es evidente por el hecho que la Escritura menciona congregaciones enteras y cada miembro de ellas estando bajo el cuidado de este oficio. 1 Timoteo 3:5: “Cuida de la iglesia de Dios (ἐκκλησίας θεοῦ ἐπιμελήσεται); Hechos 20:28: “velen por el rebaño” (προσέχετε καὶ παντὶ τῷ ποιμνίῳ); v.28b “cuiden de la iglesia del Señor” (ποιμαίνειν τὴν ἐκκλησίαν τοῦ θεοῦ); v. 31: “amonestar con lágrimas a cada uno” (νουθετῶν ἕνα ἕκαστον); 1 Pedro 5:3: “sírvanles de ejemplo” (τύποι γινόμενοι τοῦ ποιμνίου).

Este oficio y sus funciones son llamados “públicos”, pero, no porque tales tareas se desarrollen en público, sino porque ellas se hacen para el bien y por mandato de la congregación, de la misma forma en que llamamos a funcionarios civiles “siervos públicos” y su tarea “servicio público”. De la misma forma, los actos del ministerio público son “públicos” no solo cuando sus depositarios proclaman la Palabra en público a una asamblea, sino también cuando ministran en forma privada a un individuo en particular.

Donde no hay congregaciones cristianas, como puede ser un país pagano, no puede haber ministerio público, ni servicio en nombre de una congregación. Pero tan pronto como la actividad misionera produce su fruto y se forma una congregación, se puede establecer el ministerio público. Después de demostrar que un llamado particular es necesario para que haya un maestro entre los cristianos, Lutero agrega: “Este es el llamado al oficio público entre los cristianos. Pero si uno vive entre personas que no son cristianas, uno podría hacer como hicieron los apóstoles y no esperar por un llamado, pues allí [donde no hay cristianos] no existe el oficio público de la predicación, entonces podría decir: Aquí no hay cristianos, les predicaré e instruiré en el Cristianismo. Si se ha formado un grupo que me elija y llame para ser su obispo, entonces tendría un llamado.” (St. L. III: 723).

2 – La Relación del Ministerio Público con el Sacerdocio Espiritual de Todos los cristianos

Todos los cristianos, es decir, todos los que llegaron a la fe en Cristo, son sacerdotes espirituales y por lo tanto poseen el llamado a predicar el Evangelio. En palabras de 1 Pedro 2:9: “Mas vosotros sois… real sacerdocio [βασίλειον ἱεράτευμα]… para que anunciéis las virtudes de aquel que os llamó de las tinieblas a su luz admirable”, no se dirige solo a ancianos y obispos, sino a todos los cristianos. El ministerio público presupone por lo tanto este sacerdocio espiritual. Es voluntad y mandato de Dios que se elijan ancianos u obispos, no de entre los incrédulos, sino entre los creyentes, o sacerdotes espirituales, como queda en evidencia de la lista de atributos que un anciano u obispo deben tener. Tanto los atributos positivos (apto para enseñar, paciente, etc.) como los atributos negativos (que no sea codicioso, pendenciero, etc.) enumerados en 1 Timoteo 3 y Tito 1 presuponen la fe personal en Cristo.

No obstante, la Escritura distingue claramente entre el sacerdocio espiritual y el ministerio público. Pues, además de la habilidad general para enseñar, la cual la Escritura concede a cada cristiano1, se requiere una aptitud especial para enseñar; y, más allá del llamado que los sacerdotes espirituales tienen para predicar el Evangelio2, es necesario un llamado especial. Una congregación actuaría en contra de la voluntad de Dios si eligiera a los ministros públicos por sorteo, de acuerdo al orden alfabético, o por cualquier otro método similar, y en defensa de tal acción afirme que todos los cristianos son sacerdotes espirituales capaces de enseñar, y elegidos por el Espíritu Santo. No, por el contrario la Escritura advierte en 1 Timoteo 5:22: “No impongas a nadie las manos con ligereza”3, y demanda que la elección de ancianos u obispos, sea de acuerdo a los atributos enumerados como requisito para este oficio (1 Timoteo 3:1-7: Tito 1:6-12). Lutero: “las cualidades que los obispos o pastores a ser elegidos por el pueblo deben tener, las enseña suficientemente Pablo en Tito 1:5ss y 1 Timoteo 3:2ss” (St.L. X: 1598).

Lutero poderosamente reconoce los derechos, privilegios y deberes del sacerdocio espiritual y aun así distingue claramente entre el sacerdocio general de los creyentes y el ministerio público. Dice con respecto al sacerdocio espiritual: “Cuando somos hechos cristianos por este Sacerdote y Su sacerdocio [es decir, Cristo] y por el bautismo fuimos incorporados a él, también se nos dio el derecho y poder de predicar y profesar la Palabra que recibimos de Él ante todos, cada uno de acuerdo a su vocación. Pues, aunque no todos estamos en la vocación y oficio público, aun así cada cristiano debe y puede enseñar, instruir, amonestar, consolar y exhortar a su prójimo con la palabra de Dios cuando y donde sea que encuentre a alguien que lo necesite; por ejemplo, un padre y madre, sus hijos y siervos, un hermano, vecino, ciudadano o campesino. Porque un cristiano ciertamente puede enseñar a otro que aun es ignorante o débil y amonestarlo con los Diez mandamientos, el Credo, la Oración, etc., y aquel que lo oye se encuentra en el deber de recibirlo como Palabra de Dios y unírsele públicamente en confesión” (Sobre el Salmo 110:4; St. L. V: 1038).

Lutero sostiene también que los medios de gracia poseen la misma naturaleza, poder y efecto, sea que los administren cristianos comunes o ministros en su oficio público. Así escribe: “firmemente sostenemos que no hay otra Palabra de Dios que aquella que todos los cristianos deben predicar; no hay otro bautismo que el que todos los cristianos pueden administrar; no hay otro recordatorio de la Cena del Señor que aquel que todos los cristianos podemos celebrar; tampoco existe algún pecado que un cristiano no pueda atar o desatar; asimismo, nadie puede orar, sino solo un cristiano; además nadie debería juzgar doctrina, sino un cristiano. Estas ciertamente son funciones sacerdotales y reales” (St.L. X: 1590).

Por otro lado, Lutero establece la diferencia entre el sacerdocio de todos los cristianos y el ministerio público. “Aunque todos nosotros somos sacerdotes”, dice, “no podemos ni debemos sobre esta base predicar, enseñar o gobernar. Por lo tanto, de toda la congregación alguno debe ser seleccionado y elegido para confiarle este oficio; y cualquiera que tenga ahora este oficio, por su causa, no es un sacerdote (como el resto), sino un siervo, o ministro, de todos los otros. Y si no puede o no desea predicar más o servir, puede regresar a la congregación, cede su oficio a alguien más, y ahora es una vez más igual al resto de los cristianos. Observen que, así debe distinguirse el oficio de la predicación, o el ministerio, del sacerdocio universal de todos los cristianos bautizados. Pues este oficio no es otra cosa que un servicio público, que toda la congregación delega en uno, aunque todos ellos sean igualmente sacerdotes” (St. L. V: 1037).

Al demostrar la necesidad de un llamado especial para el ejercicio del ministerio público, Lutero dice: “ya que todas las cosas que hemos enumerado hasta ahora deben ser comunes a todos los cristianos, lo cual hemos probado y demostrado, no sería apropiado que alguno se coloque a sí mismo y sostenga como su posesión personal aquello que pertenece a todos nosotros. Aspira a este privilegio y ejercítalo en tanto que no haya otro que también haya recibido este privilegio. Pero, como todos tienen el privilegio, se hace necesario que uno, o tantos como la congregación desee, sea seleccionado y elegido, quien en lugar de y en nombre de todos los que tienen el mismo derecho, administre estos oficios públicamente, de modo que no haya desorden entre el pueblo de Dios y la iglesia se transforme en una Babel, sabiendo que todas las cosas deben hacerse decentemente y en orden, como el apóstol enseñó en 1 Corintios 14:40. Existe una gran diferencia entre ejercer un derecho común por mandato de la congregación y ejercitar el mismo derecho en una emergencia. En una congregación, donde el privilegio es propiedad común, ninguno debería tomarlo sin vocación ni designación por parte de toda la congregación; pero en una emergencia cualquiera puede usarlo” (St. L. X: 1589).

3 – El Ministerio Público no es una institución humana, sino divina

No es humano, sino un mandato divino que los cristianos ejerzan las obras de su sacerdocio espiritual; ciertamente, que prediquen el Evangelio no solo en sus hogares, sino también en la interacción con sus hermanos y el mundo. De la misma forma no es meramente humano, sino una regulación divina que aquellos cristianos que viven en un mismo lugar se unan, formen una congregación, y designen hombres equipados con la necesaria habilidad de enseñar para predicar la Palabra de Dios en nombre de la congregación, sea públicamente (en la asamblea pública) y privadamente (a individuos cristianos).

Como prueba de la Escritura, no solo tenemos el ejemplo de los Apóstoles, quienes “ordenaron ancianos en cada iglesia” (Hechos 14:23) con el deber de proveer a las congregaciones públicamente y privadamente con la Palabra de Dios, sino también la práctica de Pablo, quien, cuando las congregaciones en Creta fallaron en llamar ancianos, u obispos, encargó a Tito, a quien había dejado allí, ordenar a estos en cada congregación. Tito 1:5: “Por esto te dejé en Creta, para que corrigieras lo deficiente y establecieras ancianos en cada ciudad, tal y como yo te mandé”. “ancianos” y “obispos” designan a los pastores en la Escritura, pues estos términos son usados promiscue (Tito 1:5,7; Hechos 20:17,28)

A estos ancianos, u obispos la Escritura los describe a ambos exactamente iguales tanto en sus cualidades personales como en sus deberes. Ellos no solo deben ser cristianos, sino cristianos ejemplares, “sírvanle de ejemplo” (1 Pedro 5:3), también “es necesario que tenga buen testimonio de los de afuera” (1 Timoteo 3:7). Las virtudes que deben poseer, y los vicios que no deben tener, son catalogados en 1 Timoteo 3 y Tito 1. Además del conocimiento de la doctrina cristiana y la aptitud para enseñar, deben estar ampliamente familiarizados con la “sana”, es decir, pura doctrina y ser capaz de manejar tanto la tesis como antítesis, en otras palabras, ser capaz de enseñar la verdad a la congregación y refutar a los herejes (Tito 1:9-11). Al describir también el campo de su labor y su obra el apóstol nos dice: que no solo debe gobernar bien su casa, sino también cuidar de la iglesia de Dios (1 Timoteo 3:5), “cuiden de la iglesia del Señor” (Hechos 20:28); “Cuiden de la grey de Dios, que está bajo su cuidado.” (1 Pedro 5:1ss), “velen por el rebaño” (Hechos 20:28), cuidar por las almas individuales (Hechos 20:31: “manténganse atentos y recuerden que noche y día, durante tres años, con lágrimas”), “Ellos cuidan de ustedes porque saben que tienen que rendir cuentas a Dios” (Hebreos 13:17).

Entre otros, Hoefling de Erlangen cuestionó la enseñanza que el ministerio público sea ordenado divinamente. Él entiende que aquello que Pablo y Bernabé hicieron en Hechos 14:23 y Pablo ordenó en Tito 1:5ss., fue solo de significación temporaria y local, solo pensado en función de condiciones primitivas y “congregaciones recientemente formadas” de la iglesia apostólica. Pero esta restricción no se encuentra en el texto. El texto no pide que se ordenen ancianos u obispos, porque las congregaciones eran jóvenes e inexpertas, o “congregaciones recientemente formadas”, pero las congregaciones son descriptas como congregaciones en las cuales algo falta en tanto que ellas no tengan ancianos u obispos como “mayordomos de Dios” (θεοῦ οἰκονόμοις). Además, las congregaciones recientemente formadas son congregaciones reales. Una congregación es una congregación por causa de la presencia de cristianos, aun antes que el oficio del ministerio público esté ocupado. No es adecuado, por lo tanto, restringir el mandato de ordenar presbíteros u obispos a condiciones locales y temporales de la época apostólica. Lo más seguro es decir con nuestros símbolos luteranos: “Donde sea que la Iglesia está [más allá de su edad, tamaño, lugar, o tiempo], allí también permanece la autoridad [mandato] de administrar el Evangelio. Por lo cual, es necesario para la iglesia [las iglesias] retener el derecho de llamar, elegir y ordenar ministros.” (Triglotta 523, 67 [Libro de Concordia 345]). Por eso afirmamos que no queda a gusto de los cristianos si desean o no establecer y sostener el ministerio público entre ellos, sino que es su deber conforme al mandato divino. Walther así lo expresa: “el ministerio, o el oficio pastoral [Pfarramt], no es una ordenanza humana, sino un oficio establecido por Dios mismo”. Y: “El ministerio de la predicación no es un oficio arbitrario, sino que su carácter es tal que la Iglesia ha recibido el mandato de establecerlo y se encuentra atada al mismo hasta el fin de los días”. Kirche u. Amt, p. 193, 211 (Walther and The Church, p. 71, 73). La Apología dice: “Si la ordenación se entiende como aplicada al ministerio de la Palabra, no nos oponemos a llamar a la ordenación un sacramento. Pues el ministerio de la Palabra tiene mandato de Dios y promesas gloriosas” (Triglotta 311, Art. XIII, 11 [Libro de Concordia, 203]).

Allá por la mitad del último siglo [XIX] hubo una disputa considerable en la Iglesia Luterana, especialmente en Alemania, con respecto a la institución divina del ministerio público, pero los resultados fueron insatisfactorios. Solo unos pocos, e.g., Stroebel4, tomó la correcta posición escritural en contra de dos aberraciones. Hoefling de Erlangen concede que el ministerio es de mandato divino, pero solo en el sentido en que “todo aquello que es sabio, apropiado y moralmente necesario” puede considerarse como que tiene “sanción divina”, no en el sentido en que puede mostrarse que hay un expreso mandato divino para el establecimiento del ministerio público. A Hechos 14:23, donde Pablo y Bernabé ordenan ancianos en las congregaciones por ellos formadas, y Tito 1:5, donde Pablo encarga a Tito que ordene ancianos u obispos en las congregaciones de Creta, Hoefling los descarta, como hemos visto, por no considerarlos como un fundamento válido, ya que estos pasajes se refieren a “congregaciones recientemente formadas”, habla de “condiciones primitivas”, de las cuales por lo tanto, “no se pueden realizar deducciones dogmáticas y para el futuro”5. No obstante, La verdadera razón de Hoefling por la que él siente que debe rechazar la institución divina del ministerio, tiene otra motivación. Él afirma que si uno asume un mandato divino para la administración de los medios de gracias a través de siervos públicos, uno impone sobre el Nuevo Testamento un aspecto del Antiguo Testamento, un elemento legalista, o rastro de una sujeción al Antiguo Testamento.

Este argumento se refuta a sí mismo tan pronto como se aplica. Pues el uso y la aplicación de la Palabra de Dios por parte de todos los cristianos como sacerdotes espirituales no es meramente algo de “necesidad moral interna”, sino además un mandato divino directo. Todos los cristianos deben buscar en las Escrituras, leer las Escrituras, dejar que la Palabra de Dios more entre ellos, debe manifestar alabanzas a Dios, etc. Aquí también, estamos frente a imperativos, es decir con una disposición divina en el sentido de un mandato divino. Si, ahora, un mandato divino implica un rastro de sujeción al Antiguo Testamento, entonces también deberíamos negar un orden divino para el uso de los medios de gracia por parte de los cristianos, para evitar que los creyentes caigan en el legalismo. También para el Bautismo y la Santa Cena no existe solamente una “necesidad moral interna”, sino un expreso mandato divino. Pero no deberíamos por esa razón afirmar que exista una “inclinación legalista” en el uso del Bautismo y la Santa Cena, y así, por tal motivo junto a los teólogos modernos, negar el mandato divino o la institución del Bautismo y la Santa Cena.6 Igualmente, con respecto a la santificación y las buenas obras la Escritura enseña no solamente una “necesidad moral interna”, sino también una voluntad divina expresada en precepto y mandato.7 Pero no pensamos que al afirmar tales mandatos de la Escritura se incentiva a los cristianos a asumir una mirada legalista de la santificación y las buenas obras.

En pocas palabras, Hoefling declara que hay dos cosas que se contradicen, pero que no están en conflicto. El mandato divino, u orden, para hacer ciertas cosas no se ve teñido de una “inclinación legalista”, como Hoefling lo imagina. En su caso, por supuesto, esta noción se encuentra atada a la peculiar naturaleza de la teología de Erlangen. Expresamente se refiere al consenso de todos sus colegas (Erl. Zeitschrift, 1852, 152) y apela en particular a la prueba escritural que supuestamente Hofmann le ha provisto para su doctrina (la de Hoefling) (Grundsaetze, 1850, 50). La postura de Hofmann es que el teólogo al presentar la doctrina cristiana primero debe desatender la Biblia y permitir que su ego o ser “regenerado”, formule la verdad “independientemente”. Si uno tomara la doctrina cristiana no de su propio corazón, sino de una fuente externa, de la Sagrada Escritura, la doctrina recibiría el sello de la Ley, y la Escritura se transformaría en “una colección de preceptos sobre la fe”. (Schriftbeweiss I, 9ss.). Solo cuando el “ego regenerado” ha establecido sus convicciones desde la necesidad interna y autónomamente, se debe comparar el producto con la Escritura y hacer las correcciones necesarias. Sin embargo, Hofmann no corrigió el producto de su ego. Por el contrario, “corrigió” las Escrituras de acuerdo al producto que él había desarrollado a partir de la necesidad interna de su corazón, a tal punto que llegó a eliminar la satisfactio vicaria.

Hoefling fue en la misma dirección. Para sostener su negación del mandato divino para el establecimiento del ministerio, afirma que el ejemplo apostólico y mandato pertenece a la designación e instalación de ancianos u obispos, solo aplicable a la época apostólica y a las congregaciones recientemente formadas. Hemos visto que las Escrituras nada dicen sobre tal restricción. Además agrega, con el mismo propósito, que las funciones del oficio de los presbíteros u obispos en los días de los Apóstoles no se definen en las Escrituras. Hemos demostrado anteriormente que la Escritura define con gran exactitud y minuciosamente tanto las cualificaciones que los ancianos u obispos deben tener y qué deben hacer. Hoefling también dice que el oficio de presbítero en el tiempo apostólico se acercaba más al oficio de “gobernar” (regiminale). Pero las Escrituras afirman, como hemos visto, que la enseñanza de la Palabra de Dios y la refutación del error son la tarea principal de los presbíteros u obispos.

Uno se ve inclinado a juzgar a Hoefling con menor severidad porque sus oponentes (Muenchmeyer, Loehe, Kliefoth, etc.) enseñaron una doctrina del ministerio fuertemente romanizante, es decir que el oficio del ministerio público no se confiere por medio de un llamado de la congregación como poseedora de todo el poder espiritual, sino que es una institución divina en el sentido que es transmitida inmediatamente de los apóstoles a sus pupilos, considerada como un “orden ministerial” separado o casta, y que este orden se perpetúa a través de la ordenación. Algunos también enseñaron de forma tal que los medios de gracia ofrecían su poder y eficacias completos solo cuando eran administrados por hombres que pertenecían a este “orden”. En contra de esta caricatura del ministerio público Hoefling argumenta correctamente que este pensamiento hace del oficiante un “medio de gracia” junto a la Palabra y Sacramento: “los creyentes podrían verse a sí mismos con sus necesidades espirituales orientados no tanto a la Palabra y Sacramento como hacia el órgano (el ministro) divinamente privilegiado para administrarlos y distribuirlos. La eficacia plena de los medios de gracia queda dependiente de una institución legal externa; el Espíritu Santo ahora opera no tanto en y a través de los medios de gracia sino a través de los órganos nomistas [legales, regulares] para su administración.”

Pero la oposición de Hoefling no se sostiene apropiadamente en contra del ministerio público como se lo enseña en nuestros Símbolos Luteranos. La circunstancia que este oficio tiene el mandato de Dios (mandatum Dei), no hace a sus siervos públicos más “medios de gracia” u “órganos nomistas” que a todos los cristianos para que ellos también lleguen a ser medios de gracia u órganos nomistas por el hecho que su enseñanza es igualmente realizada en obediencia al mandato y ordenanza de Dios. Además, aunque los luteranos enseñan un mandatum Dei para el ministerio público, al mismo tiempo sostienen y enfáticamente afirman que el poder y la eficacia de los medios de gracia no depende de las personas que sirven públicamente, sino que los medios de gracia poseen el poder en sí mismos, no importa que los administre un creyente o impío, laico o clérigo, pastores correctamente llamados o usurpadores, el Papa o el emperador, o un joven, etc. Es una falsa deducción que la enseñanza de la institución divina del ministerio tienda a hacer “medios de gracia,” además de los medios regulares, a los hombres que ocupan el oficio del ministerio. En realidad, es todo lo contrario. Cuando se sostiene, por un lado, que los medios de gracia reciben su poder y eficacia por su institución divina, y, por otro lado, que como todos los cristianos también sus siervos públicos administran los medios de gracia por mandato de Dios, este mismo hecho de ser una institución divina inducirá a todos los que son servidos por los medios a dejar de prestar atención completamente al estado del ser humano que los administra y mirarán exclusivamente los medios de gracia, como si Dios en persona tratara con ellos.

Resumiendo, Hoefling no tiene éxito al buscar un equilibrio al oponerse a un grosero error romanista. Él pensó que para refutar el establecimiento divino e inmediato del ministerio público que Loehe y otros enseñaron era necesario negar que el establecimiento mediato de este oficio por medio de la congregación es ordenado por Dios o tiene mandato divino. Stroebel8 provee este resumen de la doctrina luterana, por el cual excluye tanto la doctrina de Loehe y Hoefling: “la enseñanza acerca del oficio ministerial de nuestra iglesia es, en pocas palabras, esta: hablar la Palabra de Dios al prójimo, administrar los sacramentos, perdonar pecados, imponer las manos, estas cosas son derecho divino de cada cristiano bautizado como sacerdote espiritual (en caso de necesidad, su deber ineludible); no obstante, por causa del orden que agrada a Dios, debería ejercitar su derecho solo en caso de emergencia, ya que normalmente se hará uso del servicio de pastores regularmente llamados por Cristo por medio de una congregación. La congregación cristiana debe saber que no debería abolir el oficio ministerial ordenado por el Señor, ni permitir que personas irracionales, o tiranos seculares o espirituales la esclavicen, sino que debe buscar para este oficio hombres piadosos, capaces y fieles hasta que el Señor regrese. Los pastores deben animarse firmemente en medio de sus pruebas en que su oficio recibido de la congregación es con total seguridad un oficio divino, que se administra solamente en nombre de Cristo, como si lo hubieran recibido directamente de él. Pues la siguiente es una deducción ilógica: Aquel que no recibe el oficio ministerial directamente del Señor, sino de la congregación, tiene meramente un oficio humano y es siervo de los hombres.”

4 – La Necesidad del Ministerio Público

Aunque el ministerio público, el cual la congregación confiere mediatamente por un llamado, debe sostenerse como ordenanza divina, aunque no se le debe atribuir necesidad absoluta. El Espíritu Santo es activo para genera y sostener la fe en los corazones de los hombres también cuando cristianos laicos predican el Evangelio por propia necesidad, al mismo tiempo que conforme al mandato divino. La predicación de la Palabra por parte de los cristianos en sus hogares, en su interacción con sus hermanos y con el mundo, no queda librada a su propia decisión o capricho, sino que es orden de Dios. Este hecho debe enfatizarse incesantemente. En tanto que los cristianos fallan en dar testimonio, ellos olvidan su llamado cristiano y hacen a la iglesia cristiana un daño irreparable. Hubo épocas – y tales tiempos pueden regresar – cuando la incredulidad y falsa doctrina sobrepasen de tal manera al cristianismo externo [visible] que los cristianos ortodoxos deban depender de la predicación de la palabra en sus hogares. Sobre esto Lutero dice: “puede pasar que el mundo llegue a ser tan epicúreo que ya no tendremos más ministerio público en todo el mundo y la predicación será solo un vicio epicúreo y el Evangelio será preservado solo en los hogares por los padres.” (St. L. VI: 938).

La Palabra de Dios es un medio de gracia aunque sea simplemente leída. Vea el debate completo, también en contra de los luteranos modernos, en página 106 y sig. Walther señala que las palabras de la Fórmula de Concordia: “el ministerio de la Iglesia, la Palabra predicada y oída” (Trig. 1101, Sol Decl., XII, 30 [Libro de Concordia, 693]), y: “La Palabra, por la cual somos llamados, es una ministración del Espíritu” (Trig. 1073, Sol Decl., XI, 29 [Libro de Concordia, 676]), entonces agrega: “esto es importante en vista de aquellos que hacen un medio de gracia del ministerio público y lo equiparan con la Palabra y los Sacramentos aseverando que es absolutamente necesario para la salvación de cada hombre, de forma tal que sin el servicio de un pastor ordenado una persona no puede llegar a creer ni obtener absolución por sus pecados, mientras que nuestra iglesia asegura esto solo de la Palabra escrita y externa en contraste con una supuesta palabra interna y toda forma de ‘entusiasmo’” (Kirche u. Amt, p. 195).

Pero la verdad que el ministerio público no es absolutamente necesario no debe traerse como una excusa para despreciar el oficio. El ministerio es despreciado (1) cuando los cristianos rehúsan oír la predicación pública de la Palabra de Dios sobre la base que ellos pueden leer la misma Palabra “en casa;” (2) cuando los responsables del oficio no se dedican a sus tareas, ofreciendo la excusa que el rebaño a su cuidado puede y debe proveer su propio alimento espiritual, ya que los cristianos son sacerdotes espirituales; (3) cuando los cristianos no se esmeran en establecer y mantener escuelas para el entrenamiento de hombres para el servicio público en la Iglesia.

5 – El Llamado al Ministerio Público

Sobre la necesidad de un llamado, ya mencionado en el capítulo 2 de esta sección, Lutero dice: “no sería apropiado que alguno se ponga a sí mismo y apropie como suyo propio lo que pertenece a todos nosotros”. En la Confesión de Augsburgo leemos: “Sobre el orden eclesiástico se enseña que nadie debe enseñar públicamente en la Iglesia ni administrar los sacramentos sin llamamiento legítimo”. (Triglotta 49, XIV [Libro de Concordia, 32]).13

La distinción usual entre un llamado inmediato y mediato (vocatio inmediata et mediata) es escritural. También Lutero la hace y la ha sustanciado copiosamente (St. L. XI: 1910ss.). Los profetas y apóstoles, también Pablo (Hechos 22:21), fueron llamados inmediatamente. Pablo enfatiza ampliamente sobre su llamado inmediato en los encabezados de sus epístolas (Gálatas 1:1; Efesios 1:1, Colosenses 1:1, etc.). Los ancianos que enseñan o pastores llamados por la congregación tienen un llamado mediato. Es de la mayor importancia tener en mente que el llamado mediato no es menos divino que el inmediato. Hechos 20:28 dice que los ancianos mediatamente llamados u obispos de la congregación en Éfeso: “velen por el rebaño sobre el cual el Espíritu Santo los ha puesto como obispos”. Darse cuenta de esto es muy importante tanto para los que sirven públicamente, como para quienes son servidos con la Palabra. Ver Walther, Pastorale, p.29s., para más detalles.

¿Quiénes son los agentes por medio de los cuales Dios designa predicadores? Esta pregunta ha causado gran conmoción y controversia dentro y fuera de la iglesia. El Papa reclama a gran voz que solo él puede hacer “sacerdotes” por medio de los obispos por él consagrados. Los anglicanos afirman que los clérigos son hechos por medio de los obispos que poseen el sello de la sucesión apostólica en ellos. Los luteranos romanistas sostienen que pueden establecerse siervos legítimos de la iglesia solo a través del “santo orden del ministerio” que se autoperpetúa. También los gobernantes han reclamado la prerrogativa para designar predicadores sin el consentimiento de las parroquias.

La Escritura enseña que ni el Papa, ni los obispos ni el clero como un orden, ni individuos dentro o fuera de la congregación tienen el derecho y autoridad de conferir el oficio público de la Palabra, sino solo el pueblo al cual es dado todo poder espiritual en la tierra y al cual se le han confiado originalmente la Palabra y Sacramentos en particular; y estos son los creyentes, o cristianos, y nadie más en el mundo. Los creyentes poseen todas las cosas (1 Corintios 3:21); los incrédulos nada, sino muerte y eterna condenación. En Mateo 28:18-20 no solo los apóstoles como tales, sino los cristianos hasta el último día son encargados con la administración de la Palabra y el Bautismo. Esto es evidente de las palabras finales: “He aquí, estaré con ustedes todos los días hasta el fin del mundo”. Así también en el mandato concerniente a la Cena del Señor, “Hagan esto en memoria de mí”, no solo se dirige a los apóstoles como tales, sino a los cristianos hasta el fin de los tiempos. Esta es la interpretación dada por el Pablo a estas palabras cuando dice (1 Corintios 11:26): “todas las veces que comiereis este pan, y bebiereis esta copa, la muerte del Señor anunciáis hasta que él venga”. Esta es la doctrina de la Escritura que con tanta claridad afirman los Artículos de Esmalcalda: “porque dondequiera existe la iglesia, allí también existe el derecho [mandato] de administrar el Evangelio. Por lo cual, es necesario para la iglesia [“die Kirchen”] retener el derecho de llamar, elegir y ordenar ministros. Este derecho es un don dado exclusivamente a la iglesia [proprie – solo a la iglesia y a nadie más], y ninguna autoridad humana puede quitárselo a la iglesia…. Aquí corresponden las palabras de Cristo que testifican que las llaves han sido dadas a la iglesia y no meramente a algunas personas: “Donde dos o tres están congregados en mi nombre, allí estoy yo en medio de ellos” (Mateo 18:20) (Triglotta 523, Poder y Jurisdicción de los Obispos, 67-69 [Libro de Concordia, 345]). Individuos o comisiones en verdad pueden extender un llamado válido, pero solo cuando son comisionados para hacerlo por parte de aquellos a quienes se les ha concedido el poder originalmente (principaliter et immediate), o cuando estos al menos han dado su consentimiento por el silencio. Los Artículos de Esmalcalda por supuesto, no se refieren a la iglesia Universal, dispersa a lo largo del mundo (ecclesia universalis), con la frase “dado a la iglesia”, sino a las congregaciones (ecclesia particularis), como el pasaje siguiente lo indica: “Donde dos o tres están congregados en mi nombre, allí estoy yo en medio de ellos”. Pues la Iglesia posee todos los tesoros espirituales y privilegios, no porque su tamaño sea grande o pequeño, sino porque está compuesta por creyentes.

Se han presentado las siguientes objeciones en contra de la elección congregacional de un pastor:

1. La objeción favorita es que en Hechos 14:23 y Tito 1:5 no se dice nada de un llamado o elección por parte de la congregación, sino que, por el contrario, estos pasajes solo dicen lo que Pablo y Bernabé hicieron y lo que Tito debía hacer por encargo de Pablo; así es que no se observa actividad autónoma, o aun cooperación de las congregaciones. Lutero correctamente nos recuerda: “Aunque Pablo encarga a Tito que ordene pastores, esto no significa que Tito los designó independientemente, por su propia autoridad, sino que él los ordenó de acuerdo al ejemplo de los apóstoles por el voto popular, de otra forma las palabras de Pablo estarían en conflicto con la práctica de los Apóstoles” (St. L. XIX: 347). Además, la palabra usada en Hechos 14:23, χειροτονήσαντες, claramente afirma que al ordenar a los ancianos hubo un voto o elección de parte de la congregación. Meyer traduce χειροτονεῖν con “stimmwaehlen”. Citamos: “Pablo y Bernabé eligieron por el voto [“stimmwaehlen”] a presbíteros, es decir, dirigieron su elección a través del voto en las congregaciones”. Para explicar esta traducción, Meyer agrega: “La analogía de Hechos 6:2-6 demanda esta connotación de la palabra “elegir”, una palabra que, tomada de la antigua práctica de votar a mano alzada, solo aparece aquí y en 2 Corintios 8:19 en el Nuevo Testamento, y esta analogía prohíbe el sentido amplio constituebant [designar, colocar] (Vulgata, Hammond, Kuinoel, y otros), o eligebant [elegir por ellos], (De Wette), de modo que la designación ocurrió enteramente por autoridad apostólica (Loehe) …. Correctamente Erasmo: suffragiis delectos [aquellos sobre quienes fue conferido por sufragio]…. Mucho más falso aun son los católicos: se refiere a la χειροθεσία [imposición de manos] en la ordenación de los presbíteros”. La historia también muestra que por largo tiempo en la iglesia de los primeros siglos, los ministros públicos fueron elegidos por el voto congregacional. Lo que remarcan los Artículos de Esmalcalda: “Antes la gente elegía pastores y obispos”. (Triglotta 525, ibid., 70 [Libro de Concordia, 345]), puede comprobarse como históricamente correcto.15

2. La objeción que en Mateo 16:18-19 las llaves del reino no fueron dadas originalmente a los creyentes, sino solo a Pedro como un privilegio especial, ha quedado completamente refutada anteriormente en página 413, nota al pie 18. En este pasaje Pedro viene a consideración solo en tanto que él cree, no como un apóstol o una persona privilegiada. Observe también que las “llaves del reino de los cielos” no son otra cosa, y no pueden ser otra cosa, que los medios de gracia, el Evangelio. Por medio del ofrecimiento del Evangelio, y solo de esta forma, los cristianos remiten pecados y así abren el cielo; al retener el Evangelio, retienen los pecados y así cierran el cielo.

Ahora, ya que los creyentes son personas a quienes Cristo ha confiado los medios de gracia, ellos eo ipso han recibido las llaves del reino de los cielos.

3. En contra del derecho de la congregación a elegir su pastor se adujo también la afirmación de los Artículos de Esmalcalda “que el oficio del ministerio procede del llamado general de los apóstoles” (Triglotta 507, Poder y Primacía del Papa, 10). Pero esta afirmación no niega que el ministerio sea concedido por medio del llamado de la congregación, ya que el mismo símbolo dice: “Por lo cual, es necesario para la iglesia [die Kirchen] retener el derecho de llamar, elegir y ordenar ministros” (Triglotta 523, Poder y Jurisdicción de los Obispos, 67 [Libro de Concordia, 345]). El oficio de los apóstoles y el oficio de los posteriores maestros de la Iglesia es idéntico en contenido y poder. Como los apóstoles fueron enviados a predicar la Palabra de Dios y no su propia palabra, así a los siervos públicos llamados por la congregación se les encomienda que enseñen no su propia palabra, sino la de Dios. Existe, en verdad, esta gran diferencia entre los apóstoles y sus “pupilos”, como llama Lutero a todos los predicadores postapostólicos, que los primeros hablaron y escribieron la Palabra de Dios infaliblemente, mientras que los otros deben tomar la Palabra de los apóstoles que ellos mismos predicaron y permanecer tan estrictamente atados a esta Palabra de los Apóstoles que los cristianos tienen el mandato de evitar a todo maestro que se aparte de esta Palabra (Romanos 16:17). Pero en ambos casos es el mismo oficio, en tanto que ambos se ocupan solo de la predicación pública de la Palabra de Dios y de transmitir los mismos dones espirituales. Así es como tenemos la lista de pasajes de la Escritura en los que los apóstoles se colocan a sí mismos en una clase con los ancianos u obispos, por ejemplo Pedro quien dice (1 Pedro 5:1ss.): “los ancianos que están entre vosotros, yo anciano también con ellos [συμπρεσβύτερος]”; y Pablo dice (1 Corintios 4:1): “téngannos los hombres por servidores de Cristo, y administradores de los misterios de Dios” Ver también 2 Juan 1; 3 Juan 1; 1 Corintios 3:5ss., etc.

6 – El Rito de la Ordenación

La ordenación al ministerio por la imposición de manos y las oraciones no es una ordenanza divina, sino una ceremonia o costumbre de la iglesia, pues, aunque se la menciona en las Sagradas Escrituras, no tiene mandato (1 Timoteo 4:14; 5:22; 2 Timoteo 1:6; Hechos 6:6; 8:17).17 Por lo tanto, pertenece a las prácticas adiáfora. Un candidato al ministerio llega a ser pastor no por su ordenación, sino por su llamado y su aceptación. Son conocidas las palabras de Lutero: “Todo el asunto depende de si la congregación y el obispo se ponen de acuerdo, es decir, si la congregación desea ser enseñada por el obispo y el obispo está dispuesto a enseñar a la congregación. Esta disposición resuelve el asunto. La imposición de manos bendice, ratifica y da testimonio de este acuerdo como un notario público y testigos dan fe sobre un asunto secular o como un pastor al bendecir al novio y la novia ratifica su matrimonio y testifica que ellos se han aceptado previamente y lo hacen público” (St. L. XVII: 114). Los Artículos de Esmalcalda expresamente definen la ordenación como una ratificación pública del llamado: “Pues antes la gente elegía pastores y obispos. Después venía un obispo, ya sea de esa iglesia o de una vecina, quien confirmaba al electo por la imposición de manos; y la ordenación no era más que tal ratificación”. (Triglotta 525, Poder y Jurisdicción de los Obispos, 70 [Libro de Concordia, 345]). Por esta razón no practicamos la llamada ordenación absoluta, es decir, la ordenación de una persona antes que ha recibido y aceptado un llamado, porque da lugar a la noción “que por medio de la ordenación se admite a un hombre a la así llamada “orden del ministerio” y que solo como sacerdote ordenado puede acceder a ese cargo” (Walther, Pastorale, 6518 [Fritz, Pastoral Theology, 62)]. La autoridad para ordenar es, por supuesto, un poder delegado por la congregación, como dicen los Artículos de Esmalcalda: “Estas palabras se aplican a la verdadera iglesia, la cual indudablemente tiene el derecho de elegir y ordenar ministros, ya que ella sola tiene el sacerdocio”. (Triglotta 525, ibid., 69 [Libro de Concordia, 345]).19

Cosas asombrosas se enseñan en la Cristiandad visible acerca de la ordenación. Roma afirma que no hay otra forma de llegar a ser “sacerdote” sino a través de la ordenación recibida por un obispo consagrado por el Papa. Aquellos llamados y designados simplemente por la congregación cristiana no son siervos de la Iglesia, sino que deben considerarse como ladrones y malhechores (Trid., de Sacram. Ord., Sess.23, c.4). Este celo por la ordenación es un celo pro domo; pues las cosas supuestamente efectuadas por la ordenación son las más valiosas para el reino del Papa. No solo la ordenación imparte ex opere operato el Espíritu Santo e imprime un carácter indelebilis, sino que, sobre todo, confiere el poder que ni siquiera los ángeles ni la Virgen María tienen, es decir, el poder de celebrar Misa, o sea, de producir (conficere) el cuerpo y la sangre de Cristo como un sacrificio propiciatorio por los vivos y los muertos, asegurando así al Papa el dominio sobre las conciencias de los hombres y acceso a los tesoros de este mundo (Trid., ibid., c. 1-4, can. 1-8). Los Episcopales, no hace falta decirlo, omiten al Papa; sin embargo, insisten con respecto a que los legítimos obispos, sacerdotes, y diáconos, cuya administración de las funciones del ministerio sean válidas, solo pueden existir al ser ordenados por obispos procedentes de una ininterrumpida Sucesión Apostólica.20 También los luteranos romanistas, quienes se niegan a conceder que el llamado extendido por una congregación hace a un hombre un ministro, sino que conciben al ministerio como un “orden cristiano distinto” que se perpetúa a sí mismo al conferir el oficio sobre nuevos miembros en su iniciación, naturalmente declaran que la ordenación es una ordenanza divina.21

7 – El Ministerio no es un Orden Espiritual Especial Superior a Aquel de los Cristianos

Lutero a veces sigue la costumbre de sus días y llama a los siervos públicos de la iglesia “geistlicher Stand” (orden espiritual), “Geistliches” (divinos), y “sacerdotes” (St. L. X: 423s.; etc.). Pero en otras ocasiones llama la atención que estos nombres no provienen de las Escrituras y que pueden formar falsas concepciones. La Escritura dice que todos aquellos en quienes mora y obra el Espíritu Santo por medio de la fe en Cristo, o sea, todos los cristianos y solo ellos, constituyen el “orden espiritual” o pueblo espiritual (“Geistliche”). No solo sobre un pequeño grupo dentro de la Iglesia Cristiana, sino que la Escritura afirma que todos los cristianos “son ungidos” (τὸ χρῖσμα), por esta unción “se les enseñan todas las cosas” (1 Juan 2:27). Todos los cristianos son espirituales (πνευματικοὶ), Gálatas 6:1, y son llamados “una casa espiritual (οἶκος πνευματικὸς), un sacerdocio santo (ἱεράτευμα ἅγιον)”, 1 Pedro 2:5. Por lo tanto, es contrario a las Escrituras llamar a un número limitado de personas dentro de la Iglesia Cristiana, concretamente a quienes están en el oficio, el “orden espiritual”, “divinos”, o “sacerdotes”. Lutero dice: “en el Nuevo Testamento el Espíritu Santo específicamente evita dar el nombre sacerdos, sacerdote, a ninguno de los apóstoles, o a ningún otro oficio, sino que restringe este nombre a los bautizados o cristianos como su derecho de nacimiento o nombre heredado en el Bautismo, porque ninguno de nosotros nace en el bautismo como apóstol, predicador, maestro, pastor, sino que todos nosotros nacemos solo como sacerdotes; por eso tomamos a algunos de estos nacidos sacerdotes, los elegimos y llamamos para estos oficios de modo que puedan ejecutar las funciones de tales oficios en nombre de todos ellos” (St. L. XIX: 1260).

Los ocupantes del ministerio público son correctamente llamados siervos públicos entre los cristianos (ministrantes inter Christianos). La Palabra y sacramentos, a través de los cuales ellos ministran, son y permanecen como propiedad inmediata de la congregación, y simplemente la administración de estos en nombre de toda la congregación, se delega a ciertas personas. En este sentido, la Escritura llama a los ocupantes del ministerio público no solo ministros de Dios o de Cristo (1 Corintios 4:1; Tito 1:7; 2 Timoteo 2:24; Lucas 12.42), sino también ministros, o siervos, de la congregación. 2 Corintios 4:5: “nos declaramos siervos de ustedes por amor a Jesús [δούλους ὑμῶν διὰ Ἰησοῦν]”. Después de decir que el apelativo “sacerdote” fue “adoptado a costa de un gran daño para la Iglesia” de los paganos o de los judíos, Lutero agrega: “Pero de acuerdo a las Escrituras evangélicas sería mucho mejor llamarlos ministros, diáconos, obispos, mayordomos…. Pablo también se llama a sí mismo servum, es decir, siervo; también dice en más de una ocasión: “Servio in Evangelio”, Sirvo [ministro] en el Evangelio. Esto lo hace, no con la intención de establecer una casta, orden, autoridad o rango especial, como nuestros escolásticos asumen, sino solo para exaltar el oficio y la tarea y, reservar el privilegio y honor del sacerdocio para la congregación” (St. L. X: 1590s.). Walther: “El ministerio público no es un orden especial, distinto de y más santo que el orden común de los cristianos, como lo era el sacerdocio de los levitas, sino que es un oficio de servicio” (Kirche u. Amt, p.221 [Walther and the Church, p.73]). En este sentido, también, los Artículos de Esmalcalda dicen que “la Iglesia está sobre los ministros” (Triglotta 507, Poder y Primacía del Papa, 11 [Libro de Concordia, 334]). La Iglesia y sus ministros tienen la misma relación entre sí como un empleador y su empleado o el propietario y el encargado.

Esta relación también es la razón por la cual la congregación tiene la autoridad y la obligación de supervisar la conducta oficial de sus siervos públicos y desafectarlos del oficio cuando ya no posean las calificaciones requeridas, sean culpables de mala conducta voluntaria, o ya no sean capaces de ejecutar las funciones de su oficio (Colosenses 4:17; Juan 10:5; Romanos 16:17-18; Mateo 7:15). Al manifestarse en contra del character indelebilis romano, Lutero escribe sobre el poder de una congregación para despedir a su ministro: “si, entonces, todos ellos son siervos, su indeleble marca sacerdotal también desaparece, y la perpetuidad de su dignidad sacerdotal, ya que pensar que uno debe siempre permanecer como sacerdote es pura ficción, pues un siervo puede ser depuesto justamente si no puede ser orientado a ser fiel. En otras palabras, puede permanecer en el oficio en tanto que sirva bien y ayude a la congregación, así como cualquiera en la esfera secular que administra un oficio público entre sus pares; sí, hay muchas más razones para despedir un siervo en la esfera espiritual que en el campo secular; pues el primero, cuando llega a ser infiel, es mucho más insufrible que un siervo infiel del mundo; quien solo puede dañar los bienes temporales de esta vida, mientras que los siervos espirituales arruinan y destruyen también los bienes eternos” (St. L. X: 1591).

Es sorprendente que aun algunos luteranos critiquen la afirmación que el oficio público es encomendado (“uebertragen”) a hombres calificados de parte de las congregaciones a través de la emisión de un llamado. Pero el término solo debe considerarse adecuado si se mantiene la enseñanza de la Escritura en cuanto a que la Palabra y los sacramentos fueron confiados por Cristo a todos los cristianos para su posesión y administración. Si además se concede que haya entre los cristianos un oficio de la Palabra en el cual una o más personas aptas para enseñar sirvan a la congregación, este oficio solo puede establecerse por comisión. Aun el racionalista Hase afirma que es “la enseñanza de la Iglesia Evangélica” que “en Cristo y en la congregación está la fuente de toda la autoridad en la Iglesia. Por esta razón cada oficio en la Iglesia solo es encomendado, así en caso de mal uso retorna a la congregación, y en una emergencia cada rito espiritual puede ser ejecutado por cualquier miembro de la congregación” (Ev. Dogm., 3d ed., 494.) Además, el término “encomendado” se usa con frecuencia entre nuestros primeros teólogos luteranos.

Hase dice correctamente que “la enseñanza evangélica” hace a la congregación fuente de toda autoridad en la Iglesia. Todo lo que los pastores de una congregación hacen como pastores es delegado, o sea, lo hace solamente por mandato de la congregación. Esto es verdad particularmente cuando pronuncian la excomunión.23 Los Artículos de Esmalcalda dicen: “Es cierto que la jurisdicción común de excomulgar a quienes son culpables de crímenes manifiestos, pertenece a todos los pastores” (Triglotta 525, Poder y Jurisdicción de los Obispos, 74; 521, 60 [Libro de Concordia, 346, 344]). Este “debido proceso legal” incluye, sobre todo, que la congregación escuche el caso y dé su veredicto. Los fuertes términos en que Lutero se refiere a una excomunión que fue pronunciada sin la investigación y veredicto de la congregación es bien conocido. (St. L. XIX: 950ss.) Así dice: “La congregación que ha de tratarlo como un excomulgado debe saber y estar convencida que merece y ha caído bajo la proscripción, como lo afirma el texto de Cristo (Mateo 18:17-18), pues no debe ser engañada y aceptar una falsa proscripción, causando daño al prójimo… aquí, donde se trata de las almas, también la congregación debe ser juez y señor”. Loescher correctamente afirma como doctrina luterana que la congregación juzga y acuerda la excomunión, mientras que el pastor como siervo público de la congregación declara o proclama la excomunión”.24

8 – La Autoridad (Potestas) del Ministerio Público

Ya que el ministerio es el oficio de enseñar la Palabra de Dios, mientras que la palabra del hombre se prohíbe en la Iglesia Cristiana, se debe obediencia como a Dios mismo al ministerio en tanto que proclama la Palabra de Dios. Hebreos 13:17: “Obedeced a vuestros pastores, y sujetaos a ellos ( Πείθεσθε τοῖς ἡγουμένοις ὑμῶν καὶ ὑπείκετε)”; Lucas 10:16: “El que a vosotros oye, a mí me oye; y el que a vosotros desecha, a mí me desecha”. Obedecer a los pastores más allá de la Palabra de Dios, no es ordenado, sino estrictamente prohibido a los cristianos (Mateo 23:8; Romanos 16:17). También la adiáfora no la decide el pastor o los pastores, sino que lo determina la congregación de cualquier lugar y de mutuo acuerdo (per mutuum consensum).

En contra del uso que los romanistas hacen de Hebreos 13:17, Lucas 10:16, etc. la Apología dice: “Porque no cabe duda que el pasaje (de Lucas 10:16): “El que a vosotros oye, a mí me oye”, no habla de tradiciones, sino antes bien está dirigido en contra de ellas. Pues no es un mandatum cum libera (la entrega de autoridad ilimitada), como ellos lo llaman, sino uno cautio de rato (una advertencia en cuanto a algo prescripto) acerca de un mandamiento especial, esto es, un testimonio dado a los apóstoles, para que les creamos a base de palabra ajena, y no a base de su propia palabra…. El dicho: ““El que a vosotros oye, a mí me oye”, no se puede entender como referencia a las tradiciones. Pues Cristo exige que enseñen de tal modo [por su boca] que se lo oiga a él, porque dice: “a mí me oye”. Su deseo es, entonces, que se oiga su propia voz, su propia palabra, y no las tradiciones humanas. De esta manera, un pasaje que nos apoya sobre todo a nosotros, y que contiene un consuelo y una enseñanza poderosísimos, estos asnos lo tuercen para aplicarlo a sus nimiedades, como la diferencia en las comidas, en las vestiduras y otras cosas semejantes. También citan este otro pasaje (Hebreos 13:17): “Obedeced a vuestros pastores.” Este pasaje exige obediencia al Evangelio. Pues no habla de un supuesto dominio de los obispos, aparte del Evangelio. Ni tampoco deben los obispos crear tradiciones contrarias al Evangelio, o interpretar sus tradiciones en un sentido contrario al Evangelio. Cuando lo hacen, se nos prohíbe obedecerles, conforme a lo dicho (Gálatas 1:9): “Si alguno os predica otro Evangelio que el que habéis recibido, sea anatema” (Triglotta 449, XXVIII, 18ss. [Libro de Concordia, 289-291]).

9 – La Igualdad de los Siervos de la Iglesia

La verdad fundamental que Cristo es el único y solo Señor en la Iglesia también regula la relación de los siervos de la Iglesia entre sí. Así como los siervos de la iglesia no son señores de las congregaciones, tampoco lo son unos de otros. La superioridad o subordinación entre ellos no es un arreglo divino, sino humano. “Ni es el Papa superior a los obispos”, dice Lutero, “ni el obispo superior a los presbíteros por derecho divino”.

La enseñanza opuesta de los papistas25, anglicanos26, y de otros protestantes romanistas27 no tiene fundamento en la Escritura. En cuanto a la supuesta diferencia específica entre presbíteros y obispos, noten que la Escritura llama pastores en un lugar a los presbíteros, y en otro a los obispos (Hechos 20:17, 28; Tito 1:5, 7)28. En pocas palabras, no hay lugar en la iglesia para reglas humanas, bajo cualquier pretexto o nombre con que quiera ejercerse, porque solo Cristo gobierna la Iglesia por medio de su Palabra.

10 – El Ministerio es el Oficio más alto en la Iglesia

Lutero a menudo llama al ministerio público el oficio más alto en la Iglesia. Él también se esfuerza en explicar en qué sentido es el ministerio el oficio más alto en la iglesia. En la Iglesia todo debería hacerse de acuerdo a la Palabra de Dios; en otras palabras, todo debe ser guiado por la Palabra de Dios como norma. Si, ahora, el oficio de la Palabra en una congregación cristiana se encomienda a un hombre, su oficio es enseñar cómo todos los otros oficios en la congregación deben administrarse. Lutero escribe: “Si se encomienda el oficio de la Palabra a un hombre, se le encomiendan todos los otros oficios que se administran en la Iglesia a través de la Palabra, tales como el poder de bautizar, bendecir [pan y vino, administrar la comunión, St. L. X: 1576], atar y desatar, orar, examinar o juzgar. Pues el oficio de la predicación del Evangelio es el más alto entre todos ellos; pues este es el verdadero oficio Apostólico, el cual establece el fundamento del resto de los oficios, y sobre el cual es necesario construir los otros, es decir, los oficios de maestro, profeta, gobernante, de aquellos que tienen el don de sanar” (Ibid., 1592, 1806). Al describir a un obispo, quien de acuerdo a 1 Timoteo 3:5 debe cuidar de la iglesia [congregación] de Dios, Lutero observa: “Ahora, estos son los hombres que deben supervisar todos los oficios: que los maestros atiendan sus oficios y no sean negligentes, que los diáconos distribuyan los dones adecuadamente y no sean descuidados” (St.L. XII: 338). Otra vez: “A quienes se concede el oficio de la predicación, se le concede el oficio más alto en la Cristiandad: también puede bautizar, celebrar misa [la Santa Cena], ejercer el cuidado de las almas [Seelsorge]; o si prefiere no hacerlo, puede concentrarse solo en predicar y dejar los bautismos y otras funciones auxiliares a otros, como Cristo hizo, y Pablo y todos los apóstoles, Hechos 6” (St. L. X: 1548).29

11 – El Anticristo

La Escritura usa el término “anticristo” en un sentido amplio y estrecho. En el pasaje de 1 Juan 2:18 todos los falsos maestros son llamados “anticristos” (ἀντίχριστοι πολλοὶ γεγόνασιν). La Escritura muestra con suficiente claridad por qué todos los falsos maestros son “anticristos”. Ya que La Escritura requiere que en la Iglesia de Cristo, no se enseñe ni gobierne otra cosa que la Palabra de Cristo (Mateo 28:20; Juan 8:31-32; 17:20; 1 Pedro 4:11; 1 Timoteo 6:3ss.), todos aquellos que enseñen otra palabra son eo ipso ἀντίχριστοι, oponentes de Cristo, rebeldes en su reino.

Pero en 2 Tesalonicenses 2:3-12 se describe al “anticristo” como un oponente de Cristo quien es único, así como en él los “muchos anticristos” convergen y aparece la apostasía por excelencia (ἡ ἀποστασία κατ ἐξοχήν). En este sentido especial ὅ ἀντίχριστος en 1 Juan 2:18 es apartado de los πολλοὶ ἀντίχριστοι como distinto de ellos: “así como ustedes oyeron que el anticristo viene, ahora [γεγόνασιν, han surgido, aparecieron] muchos anticristos”.30 El contraste en el cual ἔρχεται antecede al perfecto γεγόνασιν (han surgido) demanda que “venir” sea tomado como futuro. En los muchos anticristos aun hoy presentes en todos los falsos maestros está activo el mismo espíritu que culminará en el gran Anticristo, o en palabras de Pablo: “el misterio de la iniquidad ya está en acción, τὸ μυστήριον ἤδη ἐνεργεῖται τῆς ἀνομίας” (2 Tesalonicenses 2:7).

Las marcas del Anticristo que se describen en detalle en 2 Tesalonicenses 2 son estas: 1. La posición tomada por el Anticristo es definitivamente definida como de “rebeldía” (ἡ ἀποστασία, la apostasía, vs. 3). Obviamente esta apostasía no es una rebelión contra las autoridades civiles, sino un abandono de la religión cristiana, pues todo el contexto no habla de temas políticos o sociales, sino de asuntos del ámbito de la religión. Aquello que manifiesta el Anticristo es “toda falsedad e iniquidad”, “una mentira”, y todos aquellos que lo siguen no tienen amor por “la verdad”, o sea, de la verdad cristiana, y perecerán por la eternidad (vss. 10-12). Aun Luenemann, aunque en otros aspectos malinterpreta todo el pasaje, correctamente dice sobre la ἀποστασία: “No se trata de infidelidad en el sentido político, sino solamente infidelidad religiosa, es decir, apostasía de Dios y la verdadera religión, a lo que se refiere el término ἀποστασία. Así somos impulsados a concordar (1) por lo que el contexto inmediato dice con respecto a la apostasía del ἄνθρωπος τῆς ἁμαρτίας, (2) por la caracterización de la ἀποστασία (v. 3), como ἀνομίας (maldad), v. 7, (3) por el consistente uso bíblico (ver Hechos 21:21; 1 Timoteo 4:1). De la misma forma, también debe rechazarse como inadmisible la opinión que se trate de una apostasía que combina motivos religiosos y políticos”. 2. El Anticristo tiene su lugar “en el templo de Dios” (ὁ ναὸς τοῦ θεοῦ), v. 4, es decir, en la Iglesia Cristiana. La noción que el Anticristo elegirá los templos idolátricos de los paganos como su lugar no merece consideración alguna. Pablo nunca llama a los templos de los ídolos “el templo de Dios”, sino que da este nombre a la Iglesia Cristiana (1 Corintios 3:16ss; 1 Timoteo 3:15; 2 Timoteo 2:20, etc.). Además, si el Anticristo se ubica en el templo de un ídolo, no sería el “misterio de la iniquidad”, sino una iniquidad evidente a todos los cristianos.

3. La conducta del Anticristo corresponde con su localización en el templo. Actúa como si fuera Dios mismo (v. 4). Él “se enfrenta a todo lo que se llama Dios o es objeto de culto” (ἐπὶ πάντα λεγόμενον θεὸν ἢ σέβασμα), afirmando ser superior a todas las autoridades en el mundo, y su insolencia es tan grande que se sienta en el templo de Dios como un dios y se exhibe a sí mismo como Dios (ἀποδεικνύντα ἑαυτὸν ὅτι ἔστιν θεός). Las palabras “todo lo que se llama Dios o es objeto de culto”, por supuesto, no incluye a los ídolos paganos, pues exaltarse sobre estos no es iniquidad. Las palabras se refieren a aquellas personas en el mundo quienes en verdad no son divinas en esencia, pero que son llamados dioses en la Escritura por causa de las funciones divinas que se les atribuyen; por ejemplo, las autoridades civiles y los padres (dei nuncupativi). También el concepto “todo lo que se llama Dios” (λεγόμενοι θεὸι) también queda claramente definido en la Escritura.31 4. El Anticristo no es Satanás mismo, como algunos piensan; no obstante, su “llegada [παρουσία] es consecuencia de la obra de Satanás” (ἐνέργειαν τοῦ Σατανᾶ), ya que su reino se construye y sostiene en toda clase de poderes, señales y maravillas engañosas.32 5. El Anticristo permanecerá hasta el Juicio Final. “a quien el Señor… destruirá con el resplandor de su venida” (v. 8). Hasta que Cristo regrese visiblemente para el juicio, el Anticristo no cesará en su actividad. Ahora, ¿quién es el Anticristo? Si consideramos los hechos mencionados en este texto como aspectos característicos de su accionar, como evidentemente se las puede identificar, entonces no se trata de un tirano político, tal como Nerón, Napoleón, Boulanger, etc. (los cuales no pretendieron ser importantes en la Iglesia), ni un incrédulo manifiesto y burlador (que no quiere saber nada del templo de Dios, como Lehre und Wehre, 1869, 39ss. deja en claro). Las características aquí delineadas son aquellas del Pontífice romano o del fenómeno histórico del Papado. 1. En el Papado encontramos la más pronunciada y mayor desviación de la religión cristiana. Los cristianos saben que el hombre es justificado y salvo solo por la fe en Cristo, sin las obras de la Ley. Este es el artículo “por el cual”, como dice Lutero – y todos los cristianos concuerdan – “solo nace, se nutre, edifica, preserva y defiende la iglesia y, sin el cual, la iglesia no puede subsistir siquiera por una hora” (St. L. XIV: 168; Opp. v. a. VII, 512). Lo que el aire es al cuerpo humano, la doctrina de la justificación por la fe sin mérito humano es para la vida espiritual. Pero esta doctrina es oficialmente condenada por el Papado,33 y toda la maquinaria de la iglesia papal se activa para oponerse y destruir esta doctrina. Esta verdaderamente es la gran apostasía, ἡ ἀποστασία, de la religión cristiana; y la persona que lo representa, el Papa, es verdaderamente el peor enemigo de Cristo y su Iglesia, sobre todo porque actúa en nombre de Cristo. Porque la Iglesia Cristiana se compone de personas que el Espíritu Santo trajo a creer que tienen un Dios misericordioso sin sus obras, sino solo por la obra de Cristo, entonces el Papa, bajo el ropaje del nombre de Cristo, lanza su condena sobre esta Iglesia Cristiana e intenta destruirla; por ejemplo, al inducir a los niños que bajo su gobierno han llegado a ser miembros de la Iglesia Cristiana por el santo Bautismo a olvidar a Cristo y confiar en sus propias obras. 2. El Papado no se encuentra afuera, sino adentro de la iglesia Cristiana. Pues dentro del dominio del Papa encontramos, además de los muchos niños regenerados por el Bautismo, un número considerable de adultos que, a pesar del ambiente seductor, a través del poco Evangelio que ocasionalmente puedan oír, confían solo en el mérito de Cristo. (Ver Lutero, St. L. XVII: 2191) 3. El Papa rehúsa subordinarse; antes bien, como todos saben, insiste en que es supremo en la Iglesia y el mundo. Mientras que condena y bloquea el camino de la salvación, asevera que solo serán salvos aquellos que se sujeten a su autoridad. Altera la Palabra de Dios y sus instituciones como mejor le parece. Mientras que se pone de juez de todos los hombres, rechaza que alguien lo juzgue. Así, expresamente afirma su infalibilidad. Se arroga para sí mismo autoridad sobre las autoridades civiles y demanda que los gobiernos seculares reconozcan su supremacía y que con sus poderes sirvan a su reino. 4. También es sabido que el Papado, pasado y presente, emplea todo tipo de mentiras de poderes, señales y maravillas engañosas para fortalecer su gobierno.34 5. No puede negarse que hasta el día de hoy el Papado continúa siendo lo que siempre fue, aunque nunca se recuperará completamente del golpe mortal que le dio la Reforma.

Por lo tanto, suscribimos a la declaración de los Artículos de Esmalcalda: “las señales del anticristo coinciden con las del reino del papa y sus seguidores” (Triglotta 515, Poder y Primacía del Papa, 39 [Libro de Concordia, 340]). Nuevamente: “Este hecho demuestra evidentemente que el papa es el verdadero Anticristo” (Triglotta 475, Parte II, art. IV, 10 [Libro de Concordia, 309]).35 Se pueden numerar varias objeciones en contra de esta enseñanza. 1. Se argumentó que el Anticristo profetizado en 2 Tesalonicenses 2 es una sola persona, un “individuo”. Sin embargo, el texto no afirma esta idea. Lo que el texto dice por el contrario apunta a un fenómeno que excede el tiempo de una vida humana. El misterio de la iniquidad ya está en acción en los días de los Apóstoles, pero hay un obstáculo que impide su desarrollo completo. Primero se debe quitar este obstáculo. Entonces se producirá la revelación o manifestación del Anticristo y su destrucción final cuando Cristo aparezca para el juicio final. También las muchas señales, poderes y maravillas engañosas por las que el Anticristo construye y sostiene su reino, la seducción de gran cantidad de personas hacia la injusticia entre aquellos que perecen (vss. 9-10), sugiere un periodo de tiempo mayor. Philippi concluye: “No hay mayor pretensión sin fundamento exegético que afirmar que 2 Tesalonicenses 2:3-4 solo puede adjudicarse a una sola persona.”36 2. Contra la afirmación de nuestras Confesiones que el Anticristo profetizado en 2 Tesalonicenses 2 se encuentra plenamente presente ante nosotros en el Papado se objeta que esta enseñanza no descansa en la Escritura, sino en la historia y que uno, consecuentemente, no puede tener la certeza divina de poseer la respuesta correcta. No obstante, esta objeción es una afirmación que los mismos que la hacen no pueden sostener. Si en Jesús de Nazaret el Cristo prometido se había manifestado también era una pregunta “histórica” para los judíos del tiempo de Jesús. Como los judíos, no obstante, pudieron en base a las profecías y las palabras y obras de Jesús, saber con la seguridad de la fe que en Jesús de Nazaret “el Cristo” llegó, así al comparar las predicciones de las Escrituras con las palabras y obras del Papado podemos llegar a tener plena certeza que en el Papado “el Anticristo” se encuentra frente a nosotros, a la vista de todo el mundo.37 No podemos culpar a los papistas por negar desde su punto de vista que “papam ese ipsum verum antichristum”. Pero la casi unánime negación también de parte de teólogos protestantes modernos, incluyendo luteranos, que el Papa es el Anticristo (ver Baier-Walther, III, 683) proviene de su oposición a la sola gratia (sinergismo) y su actitud “liberal” hacia la Escritura (rechazo de la inspiración verbal). Por causa de esta falsa posición ellos no perciben (1) el tipo de ultraje que significa esta renuncia y negación para la doctrina de la justificación, (2) la tremenda ofensa que comete el Papa a suprimir la autoridad de la Palabra de Dios, y por lo tanto de Cristo, suplantándola con su propia autoridad, y todo esto usando el nombre de Cristo con una gran muestra de santidad. 3. Se argumenta que el Papado aun confiesa “artículos fundamentales” de la fe cristiana, tales como el artículo de la Trinidad y de la teantrópica persona de Cristo. Respondemos: estos “artículos fundamentales” no salvan a nadie si al mismo tiempo se niega y maldice la doctrina cristiana de la justificación. Sin el artículo de la justificación todas las otras doctrinas son cáscaras vacías.38 El hecho que el Papado aun confiese algunos “artículos fundamentales” es parte de la ornamentación externa por la cual busca ocultar su apostasía de la doctrina cristiana. 4. Algunos dicen que hubo varios papas honrados y hasta “piadosos.” Esta objeción revela una falta de juicio cristiano. No puede haber algún pensamiento piadoso en el caso de ningún Papa, ya que aun papas “piadosos” encabezan y dirigen la maquinaria que desprecia y maldice la doctrina de la justificación, o sea, toda la fe cristiana.39 La aparición ocasional de un Papa externamente respetable es parte de una maquinación externa que esconde la iniquidad espiritual e interna del Anticristo. Todas las marcas enumeradas en 2 Tesalonicenses 2 corresponden a todos los papas. Debemos destacar el pensamiento de Juan Adam Osiander: “debe notarse que la cosa esencial en el caso del Anticristo no es su piedad o depravación personal, sino la naturaleza de su oficio. Ahora, ningún pontífice, no importa cuándo reina, o cuán decente puede personalmente ser, falla al establecerse como la cabeza ecuménica de la Iglesia, o al ejercer autoridad sobre asuntos espirituales y seculares, o al aprobar los cánones condenatorios del Concilio de Trento, aunque pueda, por razones políticas, abstenerse de acuerdo a las circunstancias de matar y de la tiranía.”40 Lutero expresa este hecho con mayor claridad aun, mostrando que aquí no nos preocupamos con los vicios de Papa, sino del papado, no con la iniquidad de la persona, sino del oficio. “Existe una vasta diferencia”, dice, “entre la soberanía que tiene el Papa y todas las otras soberanías en el mundo entero. Soportar tales poderes, sean buenos o malos, no causa daño alguno, pero el Papado es una soberanía que extermina la fe y el Evangelio…. Por lo tanto, lo que condenamos no es la maldad del soberano, sino la maldad de la soberanía, pues se constituye de tal forma que no puede ser administrada por piadosos y honrados soberanos, sino solo por uno que sea enemigo de Cristo” (St. L. XVIII: 1530; Opp. v. a. V, 357). ¿Pertenece la doctrina que el Papa es el Anticristo a los “artículos fundamentales” de la fe cristiana? Ciertamente no, pues una persona solo es cristiana por su conocimiento de Cristo, no por el conocimiento del Anticristo. Antes y después de la manifestación del Anticristo existieron muchos cristianos sinceros que no han reconocido al Papa como el Anticristo. Sin embargo, todo maestro en la Iglesia Cristiana que esté familiarizado con el fenómeno histórico llamado Papado y aun no reconoce en este Papado al Anticristo profetizado en 2 Tesalonicenses 2 es débil en teología cristiana.41

Traducción: Sergio Schelske, Ing. Maschwitz, 04-07-2016.